Como escrever diálogos: o guia definitivo pra você se virar sozinho



Os textos "como escrever diálogos" costumam focar em outras questões. Por exemplo, costumam dar dicas como "foque no diálogo e não explique muito", "use falas curtas", "não use muitas gírias".

Não vou focar nisso aqui. Meu objetivo nesse texto é tirar as dúvidas e inseguranças gramaticais do escritor iniciante, além de dar algumas recomendações de como não se deixar enganar por opiniões pessoais e totalmente subjetivas.
Na época em que eu comecei a escrever esse tipo de dúvida era comum. Eu volta e meia me perguntava se ao escrever diálogos eu devia usar aspas ou travessão. Afinal de contas, existia alguma norma? Ou eu podia fazer o que quisesse?

Se você já manja da gramática e lê mais de três livros por mês, recomendo que leia meu ensaio sobre diálogos na literatura, que vai acrescentar bastante ao debate. Lá, falo bastante dos autores clássicos.

Mas vamos ao que interessa:

As principais dúvidas sobre como escrever diálogos

"Preciso usar linguagem formal?"


Não, não precisa. Na verdade, você pode fazer o que quiser. Mas vou explicar por quê:

Os diálogos são representações da nossa fala. Portanto, espera-se que eles soem da forma que os personagens falam no seu livro.

A não ser que seu livro seja composto por advogados que falam juridiquês até na mesa do bar, creio que a linguagem coloquial se encaixe na maior parte da história.

Isso significa que só posso usar linguagem informal?

Novamente: não, não significa. Você pode usar a linguagem que quiser.

Você pode usar linguagem formal em todos os diálogos do seu livro. Mas, se o seu livro se passa no Brasil dos nossos dias, saiba que seus leitores podem estranhar. Porque aqui ninguém usa linguagem formal a não ser em situações muito específicas, saca?

"Devo usar travessão ou aspas?"


Tanto faz. Aqui no Brasil os autores e autoras costumam usar travessão. Nos EUA é mais comum usar aspas.

Você é quem decide o que usar na sua história.

Gramática nos diálogos

Travessões e aspas


Existem inúmeras formas de usá-los, mas vou focar nas duas principais que costumamos ver nos livros nacionais e estrangeiros:

Travessão


Exemplo:
— Fluam, minhas lágrimas — disse o policial.

O travessão anuncia o início de uma fala. A fala é inserida. Se ela termina num ponto final ou numa vírgula, você substitui por um travessão (que faz o papel de fim da fala ou de pausa, no caso da vírgula).

Em seguida, você pode inserir quem disse e tal (elocução verbal). No caso acima, é o "disse o policial.". Se ele tivesse dito com tristeza, você poderia dizer "disse o policial tristemente.". Ou "o policial disse com tristeza", você que sabe.

E se não for um ponto final, mas uma vírgula?

Se a fala continua depois disso, muda bem pouco. Por exemplo, digamos que a frase do policial não fosse "fluam, minhas lágrimas", mas "fluam, minhas lágrimas, por favor!".

Ficaria assim com os travessões:
— Fluam, minhas lágrimas — disse o policial —, por favor!

Note que a vírgula vem depois do travessão que encerra a elocução, ou seja, a explicação do autor.
Deu pra entender até aí?

Então vamo lá:

Aspas


Exemplo:
"Fluam, minhas lágrimas", disse o policial.

É assim que eu e a maioria dos autores usam aqui. Ou seja, quase a mesma coisa que com os travessões, só muda o sinal gráfico e a vírgula, que vem após a fala.

Em finais de frases que não vêm seguidos de verbo de elocução, a sinalização vem antes de fechar as aspas:

"Fluam, minhas lágrimas."

Mas, se você lê em inglês, você talvez veja algo um pouco diferente:

"Flow my tears," the policeman said.

Ou seja, a vírgula vem antes de fechar as aspas. Por quê? Não sei. Meu conhecimento sobre gramática é limitado e puramente empírico até aqui no Brasil, que dirá em inglês.

Mas prossigamos que quero tirar mais algumas dúvidas de vossa senhoria:

Escrevendo errado nos diálogos


Uma coisa que vejo bastante é sinalizar com apóstrofe uma palavra "errada" dita por um personagem (geralmente de baixa instrução formal).

— Fluam, minhas 'lágrima' — disse o policial de baixa instrução.

Os autores colocam isso pra sinalizar que é um erro do personagem, não do autor. No jornalismo, eles usam um sic entre parênteses, assim: "Fluam, minhas lágrima (sic)."

Precisa disso? Se você quer minha opinião, não. Acho completamente desnecessário e considero uma atitude de gente ainda muito insegura com a própria escrita e com a forma como será visto pelos leitores.

Mas não tá errado. Se você achar necessário fazer isso, faça.

Por que não uso? Porque é um diálogo. No dia a dia, as pessoas falam errado. Erram o plural, falam "tá", "tô", usam gírias. Ou seja, além de desnecessário, é chato.

Imagina um livro do Guimarães Rosa sinalizando o que falava que não estava de acordo com a norma culta. Seriam aspas no livro inteiro.

Mas, se você está criando um diálogo num tribunal de justiça, talvez ache necessário usar. Como se você estivesse cutucando o advogado prepotente que fala errado.

Aí é contigo.

Não vou entrar na questão de falar errado x falar certo. Eu sei que, na linguagem oral, não existe falar errado. A linguagem é aquela que comunica uma mensagem, e ponto. Já que os diálogos na literatura são representações da nossa linguagem oral, cê sabe: não precisa dessa paranoia com português formal. Faz o que quiser.


Variações


Você vai encontrar variações disso que falei acima. Alguns autores brasileiros antigos, tipo Machado de Assis, faziam assim:
— Fluam, minhas lágrimas, disse o policial.

Outros podem fazer assim:
Fluam, minhas lágrimas — disse o policial.

Ou ainda:
"Fluam, minhas lágrimas" — disse o policial.

Não está errado nem certo. Esquisito? Eu acho. Mas não está errado.

Formas erradas e desnecessárias de escrever diálogos


Tem um jeito peculiar de usar a pontuação em diálogos, muito usado por escritores bem iniciantes:
— Fluam, minhas lágrimas. — Disse o policial.

Note que isso causa uma quebra no ritmo. Você tá lendo o "fluam, minhas lágrimas" e de repente PÁ! É forçado por um ponto final a fazer uma longa pausa antes de voltar e ler o "disse o policial".

Nesse caso, é desnecessário que se use ponto final, se virá um travessão logo após. E, se o verbo de elocução vira logo após o travessão, é desnecessário colocá-lo com inicial maiúscula.

Além de ficar esteticamente feio.

Mas, se o que virá depois da fala não é um verbo de elocução, a coisa muda um pouco:
— Fluam, minhas lágrimas. — Após dizer isso, o policial fez tal tal tal coisa e pipipi popopo. — Por favor — acrescentou.

Ou seja:

Fala – Narração – Fala – elocução.

Deu pra entender o ponto? Se não for uma elocução, mas uma narração, é normal que se coloque a pontuação antes do travessão e, após o travessão, que se inicie com letra maiúscula de começo de frase.

Não vou explicar mais que isso nem entrar em detalhes minuciosos porque você não é idiota.

Falas interrompidas ou incompletas


Muitas vezes, no dia a dia, interrompemos o que outras pessoas estão dizendo (principalmente os homens).

No diálogo, costumo fazer isso de duas formas:
— Fluam, minhas lágri...
— Cala a boca, policial, você já disse isso.

Nesse caso, usei as reticências para indicar que a fala ficou incompleta. Com a entrada da outra fala, fica óbvio que alguém a interrompeu.

Outra forma (minha favorita):
— Fluam, minhas lágri—
— Cala a boca. Chega.

Nesse caso, usei um travessão pra fazer o papel de reticências. Não existe regra específica pra isso. Vai do seu gosto.

Com falas incompletas dá na mesma:
"Fluam, minhas..."

Ou:
"Fluam, minhas —"

Tendeu?

Ainda vou dar exemplos concretos de diálogos mesmo (até agora só exemplifiquei falas). Mas antes vamos a algumas recomendações minhas:

Recomendações para escrever diálogos

Adapte as falas aos personagens


Cada um de nós tem uma voz e um jeito de falar único, certo?

Pois é. Seus personagens também.

Não adianta imprimir a mesma voz em todas as falas do seu livro. Imagine a forma como cada personagem fala e tente usar isso no livro.

Algumas pessoas repetem as mesmas palavras diversas vezes durante um diálogo. Outros usam muito "né".

Desde que os trejeitos do seu personagem não irritem ao extremo seu leitor, use-os. (Mas, se seu objetivo é irritar e incomodar, use-os mais ainda.)

Se seu personagem é muito formal, dê a ele uma linguagem formal. Se seu personagem é um carioca que surfa e vive na praia, dê a ele trejeitos e gírias de surfista. Se a personagem é uma advogada, dê a ela trejeitos mais sóbrios e formais. E esses trejeitos podem variar de acordo com profissão, formação, personalidade e até humor.

Ou faz tudo isso ao contrário. O importante é que você entenda que, se seus personagens são distintos entre si, a linguagem deles também deve ser. Dessa forma, vai bastar você colocar uma fala que seu leitor já vai saber quem a está falando.

Leia muitos diálogos


Lendo os diálogos de outros autores, você vai absorver a forma como eles dão vida aos personagens e como expressam essa vida nos diálogos.

Também é com a leitura que você vai tirar as principais dúvidas que apresentei ali em cima.

Preste atenção nos seus diálogos e nas pessoas ao redor


Essa é a melhor dica que eu recebi. Morei em três estados, em diversas cidades. E aprendi que as pessoas, mesmo morando em um mesmo bairro, podem falar de formas muito distintas e peculiares. Aprendi que prestar atenção nisso é a melhor forma de usar na ficção.

Vamos chega de conversa fiada. Vamos aos exemplos, que falam melhor que explicações (literalmente):

Exemplos de diálogos na literatura

Exemplo 1: linguagem coloquial, sem norma culta


— Imagina se o George num voltá mais. Imagina se ele levá um tiro e num voltá nunca mais. O que qu’ocê vai fazê?
A atenção de Lennie vagarosamente se voltou ao que estava sendo dito:
— O quê? — quis saber.
— Eu disse pr’ocê imaginá se o George fô embora hoje à noite e num voltá nunca mais. — Crooks sentiu no ar a aproximação de uma pequena vitória particular. — Pensa só nisso — repetiu.

(Trecho de Ratos e Homens, do John Steinbeck. Clássico norteamericano do século XX.)

Viu só? Mesmo sendo uma tradução, mantiveram a coloquialidade. O livro se passa em uma fazenda, com pessoas de baixíssima instrução formal (e muita malandragem). Ou seja, nada mais natural.

Exemplo 2: usando aspas, elocuções verbais e narração entre diálogos


“Você se ressente deste tempo, não?", pergunta Armstid.
Cash não responde.
"Um osso partido sempre dói", diz Littlejohn. "Um sujeito de osso partido pode prever mudança de tempo."
"Cash teve sorte de escapar só com uma perna quebrada", diz Armstid. "Podia ter ficado aleijado, de cama a vida inteira. De que altura você caiu, Cash?"
"Oito metros e meio, onze centímetros e alguns quebrados, mais ou menos", diz Cash.
Eu me aproximo dele. "A gente escorrega facilmente em cima de tábuas molhadas", diz Quick.
“É uma pena", eu digo. "Mas você não podia fazer nada.”

(Trecho de Enquanto agonizo, do William Faulkner. Outro clássico da literatura norteamericana do século XX.)

Viu como os autores usam aspas e como isso vai de cada um? O Steinbeck é estadunidense e usa travessões. Faulkner também é e usa aspas.

A única coisa que não recomendo do diálogo acima é o uso de elocuções verbais repetidas (diz Armstid, diz Cash, diz Quick). Tenta variar um pouco.

Exemplo 3: aspas, travessão indicando interrupção


"Entendo", disse ele. "Mas nada disso me diz precisamente o que quero saber."
Terminei de beber meu drinque de fim e laranja. Não gostei muito. Sorri para ele. "Deixei um detalhe de fora, sr. Spencer. Eu tenho um retrato de Madison aqui no meu bolso."
"Um retrato de Madison? Receio que eu não—"
"Uma nota de cinco mil dólares", disse eu. "Sempre ando com ela. Meu talismã."
"Meu Deus", disse ele em voz baixa. "Isso não é terrivelmente perigoso?"
"Quem foi mesmo que disse que depois de certo ponto todos os perigos são iguais?"

(Trecho de O longo adeus, do Raymond Chandler. Clássico policial norteamericano do século XX.)

O Chandler era um grande mestre dos diálogos. Inclusive dizia que suas narrações e histórias eram só uma desculpa pra justificar suas experimentações com diálogos.

Um exemplo nacional agora:

Exemplo 4: travessões, elocuções entre falas


— Parece muito tarde, Guiomar — disse a baronesa.
— E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um encontro que tive aqui na chácara.
— Um encontro?
— Um homem.
— Algum ladrão? — perguntou a madrinha parando.
— Não, senhora — respondeu Guiomar —, não era ladrão. A minha mestra de colégio... sabe que morreu?

(Trecho de A mão e a luva, do Machado de Assis.)

Foi um diálogo aleatório que encontrei agora folheando o livro, que acho insuportável. Exemplifica como podemos usar os travessões aqui.

Mas tem algum bom exemplo de autor brasileiro usando aspas? Mais que isso:

Exemplo 5: diálogo sem elocuções verbais entre falas, com aspas, reticências e travessões indicando interrupção


"Pensei que você tinha desligado."
"Não... não, é que —"
"Não estou ouvindo nada, quer falar mais alto?"
"Eh... hum, eh..."
"Não estou entendendo nada."
"Não sei se já podemos."
"Podemos o quê?"
"Nos encontrar."
"Mas o que impede?"
"Não sei."

(Trecho do conto O gravador, do Rubem Fonseca.)

Aí já podemos ver um exemplo de conversa no telefone, com hesitações, interrupções e pessoas que não se entendem muito bem. Ótimo exemplo de como usar os sinais gráficos, também.
Mas, até aqui, nenhuma grande novidade. Vamos começar a complicado um pouco e sair do óbvio:

Exemplo 6: sem travessões nem aspas


A gente vai morrer?
Em algum momento. Não agora.
E ainda estamos indo para o sul.
Sim.
Para ficarmos aquecidos.
Sim.
Tudo bem.
Tudo bem o quê?
Nada. Só tudo bem.
Vá dormir.
Tudo bem.
Vou apagar a lamparina. Está bem?
Sim. Está bem.
E então mais tarde na escuridão: Posso te perguntar uma coisa?
Pode. É claro que pode.
O que você faria se eu morresse?
Se você morresse eu ia querer morrer também.
Para poder ficar comigo?
É. Para poder ficar com você.

(Trecho de A estrada, do Cormac McCarthy, outro clássico americano.)

Esse mostra um diálogo simples entre duas pessoas cru, sem explicações nem aspas nem travessões. Apenas diálogo (e uma breve narração: "E então mais tarde na escuridão:", e só). Próximo exemplo:

Exemplo 7: falas incompletas que continuam em outro parágrafo


A luz num vai voltar tão cedo, Edma disse, nem precisa esperar janta, se quiser comer come, porque essa luz acho que num vai voltar tão cedo não, se fosse pra voltar —
Eu vou comer, ele disse.
— já tinha voltado, agora já passou um tempão, é muito ruim, ruim demais ficar sem luz, mas é só aqui que isso acontece, lá em casa nunca aconteceu não, e aqui que eu vejo é a primeira vez, também acho que nunca tinha acontecido, eu pelo menos nunca vi, porque —

Esse trecho é meu, na verdade. Esse dá um exemplo bem básico de algo que você pode fazer pra tornar seus diálogos mais reais: pessoas falando uma por cima da outra, como em uma discussão.

Nesse diálogo acima, enquanto a mulher fala ininterruptamente, um homem fala sozinho ao mesmo tempo sobre outro assunto. Deu pra entender?

Exemplo 8: sem travessões nem aspas, com vírgulas em final de frase e narração começando em letra minúscula


Ele chegou pra mim e disse, 
Ei, eu preciso que tu fique até tarde hoje, 
e eu respondi na hora,
Claro, seu Neto, fico sim, estou às ordens, 
pois eu era bem pau mandado, e falava assim com medo de ser desrespeitoso com aquele bilionário sequelado.

Outro trecho meu. Autoexplicativo.

Exemplo 9: só com vírgulas, sem parágrafos


O médico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora, ou parecido, Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso óculos, E diz-me que foi de repente, Sim, senhor doutor, Como uma luz que se apaga, Mais como uma luz que se acende, [...]

(Trecho de Ensaio sobre a cegueira, do José Saramgo.)

Bom, Saramago é assim. Não tem interrogação, exclamação, travessões. É vírgula atrás de vírgula e um ou outro ponto final. Breathtaking.

Enfim. Esses são os exemplos que eu queria te mostrar. Se isso pra você ainda é suficiente, caro amigo, então toma: Considerações e exemplos sobre o diálogo na literatura. Nesse ensaio eu me aprofundo um pouco no tema e cago algumas regras que me fizeram ser bem sucedido na construção de diálogos.

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