Mais uma consideração sobre o diálogo na literatura

Mais uma consideração sobre o diálogo na literatura


1.

Um texto meu relativamente popular tanto aqui quanto no Medium é o Considerações sobre o diálogo na literatura. Lendo o ensaio O romancista ingênuo e o sentimental, do Orhan Pamuk, tive alguns bons insights sobre o mesmo assunto que achei que seria interessante criar um novo post sobre o assunto.

Os diálogos são inclusive assunto de muito debate entre a comunidade de escritores iniciantes aqui na internet. Volta e meio vejo alguém perguntando se é permitido (como se existisse isso de pode ou não pode na literatura e na arte) usar linguagem coloquial, se diálogos devem ser formais, se deve haver equilíbrio entre a linguagem do narrador e a dos narrados.

Bom, antes de responder a pergunta convido você a refletir um pouco comigo, com o Pamuk e com a Marguerite Yourcenar.

2.

Yourcenar destaca uma importante função do romance: ele incorpora expressões banais por uma edição estilística — frases como "Por favor, me passe o feijão", "Quem deixou a porta aberta?" e "É melhor dar uma espiadinha na janela: vai chover".(Página 95)

Tom e linguagem no romance histórico, da Marguerite Yourcenar, é um ensaio que fala sobre isso. Uma das funções principais do romance, naquela época, era registrar esses diálogos frívolos. Antes do romance expressar essa simples comunicação do dia a dia, como poderíamos saber de que forma um povo realmente falava?

3.

Agora temos YouTube e WhatsApp pra registrar isso pra posteridade. Daqui a alguns anos, haverão estudos sobre nossa fixação pela palavra top e pelas expressões importadas crush e bad, todas baseadas em vídeos, memes e mensagens privadas.

Mas uma das funções principais do romance continua sendo essa: esquecer a linguagem formal que não usamos no dia a dia e expressar no papel nossa linguagem coloquial, o jeito que a gente fala com nossos amigos, a forma que falam na nossa cidade, no nosso bairro, as gírias, as expressões. Isso que torna uma obra única. E foi o que escritores como Rosa e Ramos fizeram.

Ou seja: não, você não precisa usar linguagem formal nos seus diálogos na literatura. Aliás, a não ser que seus personagens sejam advogados, me sinto obrigado a dizer que você não deve usar linguagem formal, se me permite a cagação de regra.

Se fosse pra ler gente falando difícil o leitor iria atrás de decisões judiciais.

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