Philip Roth mostra que a felicidade alheia pode ser ofensiva

Principalmente quando tudo tá dando errado na nossa vida.

Philip Roth pensando na vida — ou, mais provavelmente, na morte.
Homem Comum é o tipo de livro que você já sabe como começa e como termina — afinal, o livro começa no enterro do protagonista da história. Então logo nas primeiras páginas sacamos qual é a do autor: ele vai contar uma história que começa e termina em morte. Igual as histórias daquela tua tia-avó que mora no interior de Minas.

Mas o livro é, sem dúvida, muito mais do que uma trama de início e fim previsíveis.

(Abro aqui espaço pra um adendo: acho muito bizarro esse medo de spoilers. A impressão que me dá é de que o importante numa história é como ela termina, que o meio não importa, como se a trajetória fosse irrelevante e como se lêssemos só pra descobrir a conclusão do enredo. Isso não é literatura policial, onde lemos pra descobrir a solução do mistério. E, mesmo se fosse, dane-se o final. Se você se importa tanto assim com a conclusão de uma história passe a ler só a sinopse e a última página.)

A história acompanha um certo senhor cujo nome não chegamos a saber. Após o enterro do protagonista, no começo, somos levados ao início de tudo. Mote parecido é o de A morte de Ivan Ilitch, clássico do russo Tolstoi, que acompanha a trajetória de um funcionário público e como foi acometido pela doença que por fim o levou à morte. Mas o personagem sem nome de Roth não foi morto por uma doença, mas por uma série de tragédias relacionadas à sua saúde. E, quando digo que somos levados ao começo de tudo, eu me refiro ao começo mesmo.

Já pela infância o personagem passa por uma internação e assiste à morte do menino da cama ao lado. Após esse Meet & Greet maroto com a dupla Doença e Morte, ele se torna um visitante assíduo de salas de cirurgia, da infância até o inexorável fim de sua vida.

A resignação do personagem é explícita durante todo o livro.

“O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. Não há outra saída.”

Então não espere nada menos que um relato melancólico, deprimente e totalmente sem esperanças sobre um personagem que apenas assiste à vida passar como o Chico vendo a banda.

Um ponto que me chamou atenção no livro é o relacionamento do protagonista com o irmão Howie. Howie, irmão mais velho, sempre teve uma saúde invejável e uma carreira profissional admirável. Um sujeito feliz, supomos. E, por mais que o admire mais que tudo, a felicidade do irmão o entristece. Ele é tomado por uma inveja nociva que sente pelo irmão — afinal, ele sofrera a vida inteira, passando por doenças e cirurgias, sendo odiado pelos filhos, se divorciando de suas esposas e vendo o completo sucesso do irmão.

E acho que a felicidade alheia pode, sim, ser triste, principalmente pra um cara deprimido e engolido pela própria vulnerabilidade, como o personagem de Roth. (Inclusive, já falei sobre isso.)

Por que todos são tão felizes e tantas coisas ruins continuam acontecendo com ele? O que havia de errado com ele? Por que seu irmão, que saiu do mesmo ventre, era tão feliz e tinha tanta saúde?

“A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.”

O pessimismo permeia todo o livro. Aliás, não acho que seja um livro a ser recomendado para pessoas com depressão. Um retrato de uma vida repleta de desgraças e sem qualquer esperança de reparação não é o tipo de coisa que vai ser divulgada no setembro amarelo.

“Enquanto olhava a seu redor, não conseguia deixar de se perguntar qual daquelas pessoas seria a próxima a morrer. Em algum momento, ocorre a todos nós o pensamento de que, dentro de cem anos, ninguém que está vivo agora existirá — uma força avassaladora terá varrido a todos da face da Terra.”

Na primeira cirurgia à qual é submetido, um pensamento que ocorre ao homem comum pode ser interpretado como uma autoconscientização da fragilidade que o acompanharia durante toda a vida.

“No momento de terror em que colocaram a máscara de éter sobre seu rosto como se para sufocá-lo, ele seria capaz de jurar que ouvira o cirurgião, fosse quem fosse, cochichando: ‘Agora eu vou transformar você em menina’.”

A passagem (misógina?) mostra que era tudo sobre virilidade, afinal de contas. Todas aquelas doenças e a velhice massacrante eram, para ele, um atestado do fim de sua virilidade, de sua masculinidade, do que ele achava que devia ter como homem. Daí vinham a insegurança e a vulnerabilidade.

As reflexões a respeito da morte e da própria existência, no entanto, não se limitam à visão de um homem de moral dondraperiana (inclusive o homem comum fez carreira na publicidade na mesma época que a retratada em Mad Men). Digo que é um livro que vale a pena ser lido, principalmente pra quem quer um relato deprimente com uma visão de mundo pessimista (qual foi, não diz que só eu me sinto atraído por essas coisas). É ótimo pra refletir sobre a velhice e o que sucede inexoravelmente a ela: a morte.

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