Existem poucas mulheres na literatura clássica mundial?


Se eu te perguntasse, assim de repente, o nome de três autores clássicos da literatura mundial, quais nomes surgiriam na tua cabeça? Dostoievski? Tolstoi? Flaubert? Kafka?

Deixa eu adivinhar: nenhum dos que você pensou é mulher. Se você lembrou de alguma autora clássica, parabéns — elas são raridade.

Na obra Cânone Ocidental, do renomado crítico Harold Bloom, figuram apenas três mulheres entre os clássicos mundiais: Jane Austen, Emily Dickinson e Virginia Woolf. Se você pensou em autoras clássicas, muito provavelmente pensou nelas. Por outro lado, vinte e três homens estão listados como essenciais para se conhecer a literatura ocidental. E acho que isso diz muito sobre o nosso ocidente, mesmo.

Não, não é porque mulheres escrevem menos.

Há três anos administro uma página no Facebook com o nome deste blog. Há dois anos, criei um blog com o mesmo nome, pra publicar alguns textos engavetados (mas esse foi hackeado e todo o conteúdo foi perdido. Criei, então, este). Entre idas e vindas, o foco da página era compartilhar citações legais de autores que eu encontrava por aí. Nessa época, eu cagava pra representatividade e não notava essa diferença gritante entre a quantidade de homens e mulheres na literatura.

Esse ano, porém, após um hiato (de pura preguiça) na página do Facebook, resolvi criar um perfil no Instagram pra continuar o trabalho. E então recomecei a tarefa de separar citações e garimpar boas frases.

Costumo buscar frases de autores clássicos e renomados, dos mais variados países. Mas depois de algumas postagens passei a notar que as mulheres têm uma presença que soa tímida na literatura. Conforme eu já disse, entre os clássicos todos conhecem inúmeros homens, mas as mulheres são sempre as mesmas — as que já citei e, quando muito, as irmãs Brontë e a Clarice Lispector.

Pra compensar isso, eu busco frases e citações de mulheres sempre que posso. Uso as que já conheço, as contemporâneas, as clássicas e as que descubro ao acaso (e assim conheci uns nomes bem interessantes).

Foi a partir daí que comecei a buscar as raízes dessa exclusão. (Você achou mesmo que eu fosse capaz de escrever um texto inteiro sem numerar tópicos?)

1.

Um dos motivos — o primeiro que a maioria de nós indicaria como causa — é a condição precária das mulheres nos séculos passados no que se refere a alfabetização e estudos.

No começo do século XIX, além da escolarização meramente engatinhar, o ensino era separado para meninos e meninas, e o segundo grupo foi excluído por um bom tempo. Mesmo no final do século XIX, décadas depois das mulheres terem sido inseridas nas escolas, elas não representavam nem metade, em parte por resistência da família e em parte por causa do Estado, que fazia com que elas entrassem na escola um pouquinho mais tarde.

2.

Uma das poucas formas de escrita irrestrita às mulheres no século XIX, por exemplo, era privada: cartas familiares. Fora isso, quando a escrita delas não era desestimulada, se concentrava em campos bem específicos, como obras voltadas ao público infantil.

A escuta direta da sua voz depende, no entanto, de seu acesso aos meios de expressão: o gesto, a fala, a escrita. Questão de alfabetização, é certo, que em geral é posterior à dos homens, mas que pode, localmente, precedê-la; mas, mais ainda, questão de penetração num domínio sagrado e sempre marcado pelas fronteiras flutuantes do permitido e do proibido. Há gêneros admitidos: a escrita privada, nomeadamente a epistolografia, que nos dá os primeiros textos de mulheres e as suas primeiras obras literárias (Madame de Sévigné), antes que a correspondência, tornando-se um dever feminino comum, se transforme numa mina inesgotável de informações familiares e pessoais; a escrita religiosa, que nos permite ouvir santas, místicas, abadessas de renome — Hildegarda de Bingen, Herrade de Landsberg, autora de Hortus Deliciarum — , mulheres protestantes emprenhadas no ardor dos “revivals”, senhoras caridosas dedicadas à moralização dos pobres. Qual foi a concessão religiosa mais propícia à expressão feminina, e sob qual forma? Pelo contrário, há domínios praticamente proibidos: a ciência, cada vez mais, a história, e sobretudo a filosofia. A poesia e o romance constituem, a partir do século XVII, a frente pioneira das Preciosas, conscientes do desafio que a linguagem representa.

O trecho (livremente adaptado) é de um livro de Georges Duby e Michele Perrot, historiadores que, pela primeira vez, escreveram uma história das mulheres na literatura ocidental.

3.

E, para atenuar o problema, estereótipos começaram a surgir.

Outro trecho da mesma obra acima citada:

A partir de então não se trata tanto de escrever como de publicar, e sob o seu próprio nome. O uso do anonimato ou de pseudônimos confunde as pistas, encobrindo também a poeira de obras cuja mediocridade e redundância moral levantam a questão dos constrangimentos que a virtude impõe à expressão. Sem dúvida, escrever é, em si, suficientemente subversivo para que se não possa ousar a contratação ou a audácia formal.

Algo que evidencia isso é Mary Ann Evans.

Para fugir do estereótipo de que mulheres só escreviam romances meio Nicholas Sparks meio água-com-açúcar — ou, colocado de uma forma ainda mais triste, para ser levada a sério — , passou a publicar sob um pseudônimo que você provavelmente conhece: George Eliot.

Isso fala bastante sobre a história das mulheres na literatura ocidental.

Mas esse é só um resumo da situação. Mais sobre isso eu não poderia comentar por falta de conhecimento (e competência).

4.

A partir da metade do século XIX, no Brasil começaram a surgir periódicos dirigidos e direcionados a mulheres. A maioria deles, como você pode imaginar, foi esquecido e pouco se fala sobre isso.

Julia Lopes de Almeida, escritora, foi uma das idealizadoras da Academia Brasileiras de Letras, mas excluída na primeira reunião da ABL, pois os fundadores optaram por manter a Academia totalmente masculina, como a Academia Francesa; e esse veto só caiu em 1977, com a entrada da Rachel de Queiroz.

Mas — e esse é o motivo de eu ter iniciado esse texto — acontece que as mulheres sempre escreveram, apesar desse desfavorecimento histórico. Basta pesquisar um pouco sobre a história das mulheres que você descobre isso (se pra você não for óbvio o suficiente). Elas sempre produziram peças, poesias e romances dos mais variados gêneros e nos mais variados países.

Uma delas, inclusive, foi muito importante no período do Renascimento: Cristina de Pisano (por muitos apontada como primeira escritora feminista). A obra da escritora sobreviveu a mais de seis séculos, e mesmo assim não se ouve falar dela na historiografia literária tradicional.

5.

Ou seja: mesmo que em menor proporção que os homens — por questões históricas e sociais relacionadas aos gêneros — , as mulheres sempre escreveram. E por que não recebem a atenção devida? O que eu deveria fazer? O que você pode fazer, se a culpa disso recai nos nossos ancestrais que mal imaginavam que a humanidade pudesse chegar até aqui?

Leia mais mulheres. Compartilhe mais mulheres. Publique mais citações de mulheres na sua página no Instagram (essa foi meio pessoal). Pesquise mais sobre. O que eu mostrei nesse texto não passa de um plano MUITO geral do assunto. Acredito até mesmo que não tenha dado a relevância necessária a ele. Se você googlar umas palavras-chave relacionadas ao assunto encontrará muita informação disponível, assim como eu encontrei.

Afinal, qual seria o sentido de dar menos importância — literária e histórica — à literatura feminina pelo simples fato de ter sido escrita por mulheres?

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