Detalhes, metáforas e memórias na literatura



Fotografia: Irina Blok


1.

Uma vez, num tópico qualquer desses grupos de escrita criativa no Facebook, surgiu um debate sobre escritores que têm uma visão de mundo diferenciada, dando atenção aos detalhes. O ponto é basicamente o seguinte: pra você escrever algo que preste, você precisa ver as coisas por uma ótica diferente pra transmiti-las aos outros.

2.

Eu, do topo da minha inexperiência prepotente, compartilho a mesma teoria (e me esforço pra desenvolver essa habilidade diariamente): escrever é transformar detalhes que as pessoas veem, mas não notam, em palavras.

Perceber que seu pai tamborila os dedos da mão esquerda sobre a coxa quando está impaciente; que ele pisca o olho direito mais rápido quando toma café; que seu amigo engole em seco toda vez que você fala a palavra morte; que seus pais imitam, inconscientemente, os movimentos e gestos um do outro enquanto conversam sentados; que seu amigo gaúcho coloca água no chimarrão e oferece a você, sem nunca ser o primeiro a tomar, e que por isso ele espera que você faça o mesmo.

3.

Acontece que, pra mim, isso não é automático. Na verdade, todos nós percebemos esses detalhes, sim, mesmo que não saibamos disso. Mas transformar em palavras, que é a função do escritor, é uma tarefa um pouco mais complicada. Transformar em palavras que gerem curiosidade, mais ainda.

É fácil listar pequenas curiosidades como as que eu listei acima. Você percebe tudo isso. Mas escrever isso usando figuras de linguagem  —  de forma que o leitor diga “caraca, como nunca pensei nisso?”  —  é algo que leva tempo.

4.

Em Como funciona a ficção, James Wood nos dá exemplos de como podemos perceber o detalhe na literatura. Ele diz que detalhes que muitas vezes podem soar insignificantes podem conferir realidade à narrativa.

A literatura é diferente da vida porque a vida é cheia de detalhes, mas de maneira amorfa, e raramente ela nos conduz a eles, enquanto a literatura nos ensina a notar.

Como exemplo, ele cita Joe Simpson, um alpinista que, momentos antes do que poderia ser sua morte, cantarolou mentalmente uma música que odiava, e pensou que não seria justo morrer com aquela trilha sonora. Proust chegou a dizer que a morte é sempre acompanhada dessas reflexões frívolas, porque nunca estamos preparados pra ela. Wood ainda diz:

A literatura nos ensina a notar melhor a vida; praticamos isso na vida, o que nos faz, por sua vez, ler melhor o detalhe na literatura, o que, por sua vez, nos faz ler melhor a vida.

Costumo inserir esses detalhes que parecem supérfluos no que escrevo  —  um ladrão que, prestes a arrombar uma casa, acaba lembrando dele mesmo fugindo de um Rottweiler quando era criança; o tom de voz da psicóloga que lembra o personagem do pai dando a notícia da morte do avô; o hip-hop americano que o faz se sentir sozinho num carro voltando pra casa tarde da noite.

Eu busco explorar essas sensações e uso isso como exercício criativo  —  o que esse cheiro me lembra? O que essa música me faz sentir? Por que eu lembrei disso justo agora? Por que qualquer música do grupo de pagode Revelação me lembra de Cabo Frio?

Acredito que usar esse tipo de recurso numa narrativa vai dar profundidade aos personagens. Vai mostrar que eles são reais, e não pura invenção (embora sejam).

5.

Além de apelar pras memórias, pros sentidos e pra percepção do personagem  —  que é uma mimese da nossa —, coisas que dão novas camadas a ele, o detalhe é presente na própria narração. E isso pode ser reflexo da visão do narrador ou do autor, que vive se intrometendo na história.

Um bom exemplo é o romance Barba Ensopada de Sangue, do Daniel Galera. Uma doença neurológica do protagonista  —  a prosopagnosia  —  torna ele incapaz de reconhecer rostos. Por esse motivo, tem a necessidade de identificar as pessoas por meio de outros detalhes: o cabelo, o porte físico, as roupas que usa, a voz. E isso acaba abrindo portas pra um detalhismo exemplar, onde vemos minúcias de tudo que cerca o personagem, de tudo que ele ouve, de tudo que ele vê, de tudo que ele faz, de tudo que ele percebe, sempre de forma bem delineada, com descrições precisas.

6.

Um erro comum, no entanto, pode surgir: focar na parte visual da narrativa. A forma que encaramos a realidade que nos cerca é influenciada por muitas coisas, não só pela imagem. Um cheiro pode automaticamente nos trazer lembranças  —  e suscitar uma aproximação do leitor, também. Ocorre a mesma coisa com o paladar, com o tato. O que o personagem sente na boca faz o leitor pensar no mesmo gosto, fazendo-o sentir repulsa, prazer, raiva. O calor que incide sobre sua nuca dá novos contornos pro que se passa na narrativa, mesmo que isso não tenha nenhuma utilidade pra história.

Sim, ouvimos sempre que cada frase no texto literário deve ter a função ou de desenvolver o personagem ou de desenvolver a trama. No caso do detalhamento da percepção e das memórias que as percepções suscitam, a função é desenvolver o personagem (e a trama, claro). Mas e esses pequenos detalhes? Preciso mesmo detalhar um cenário? Preciso detalhar uma roupa? De que serve o cheiro que o personagem sente? Se o cheiro for de merda ou de flores a trama não continua a mesma?

Sim e não.

7.

Eis o que o Daniel Galera disse num artigo publicado recentemente, em inglês (traduzido por um cara que nunca terminou um curso de inglês):

Se você disser ao leitor que a pedra sobre a qual ele está sentado é “quente”, você está sugerindo um processo, uma experiência. A história não é sobre o sol esquentando a pedra nem sobre a pessoa experimentando o calor em sua bunda, mas acredito que vamos além desses aspectos, a fundo em nossas imaginações, enquanto lemos essa frase.

Ou seja, mesmo que o detalhe não sirva de nada nem pra trama nem pro desenvolvimento do personagem, ele faz parte da experiência. Ele atiça a imaginação do leitor e faz com que crie uma conexão com o livro.

8.

Por causa disso tudo, e principalmente desde que li o livro do James Wood, passei a ligar muito mais pros detalhes (tenho, inclusive, um bloco de notas onde coloco pequenas e específicas observações esparsas sobre o que vejo e sinto).

Podemos ver essa precisão descritiva até mesmo por meio de metáforas e comparações.
Tolstoi, em Anna Kariênina, diz que os bracinhos de um bebê são tão rechonchudos que parecem amarrados por uma linha. Tchekhov, em A estepe, escreveu: “Sem nada para fazer, Iegóruchka pegou um grilo no capim e, dentro do punho fechado, ergueu-o até a orelha e por muito tempo ficou ouvindo como ele tocava seu violino”. O protagonista de Homem comum, do Philip Roth, diz ter sofrido uma “vasectomia estética irreversível”, falando sobre seu trabalho como pintor. Algum autor cujo nome não lembro num livro cujo nome tampouco recordo comparou a ilha de Manhattan a uma almofada de alfinetes. Cormac McCarthy, em Todos os belos cavalos, disse: “Onde um par de garças se unia pelos pés a suas sombras compridas”.

São essas observações específicas  —  ainda que abstratas  —  que formam uma imagem pro leitor. Essas associações tocantes, que ocupam uma ou duas frases, funcionam muito melhor que uma página inteira descrevendo um cenário imóvel, que não é nada senão entediante.

9.

Claro, os detalhes podem, muitas vezes, ser excessivos, desgastantes e desprovidos de qualquer sentido. Não é esse o ponto deste texto. Acontece que essa especificidade, esse esmero nas descrições, enriquece o texto, mesmo que não diga nada sobre o personagem ou sobre a trama. Usar metáforas, comparações, descrições objetivas que significam muito mais do que dizem é algo muito além da verborragia visual, uma armadilha em que muitos caem. Não são esses detalhes, afinal, que tornam um texto literário?

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