Sobre imagens que falam mais que mil palavras e nossos devaneios diários


1.

Confúcio certa vez disse que uma imagem vale mais do que mil palavras  —  e isso foi tão repetido que hoje é um grande senso comum visto pela maioria como verdade absoluta. Você não precisa legendar aquela sua foto no Instagram a não ser que queira expressar algum pensamento filosófico. E é tão senso comum que às vezes fico triste. Se uma imagem vale mais do que mil palavras, não seria melhor desistir da escrita e virar fotógrafo? (Tá aí uma coisa que já cogitei algumas vezes.)

Talvez isso seja por conta do sucesso das mídias audiovisuais  —  se uma imagem vale mais que mil palavras, imagine uma sequência de dezenas de milhares delas sendo reproduzidas em sequência com sons, falas e até efeitos especiais. Escrevendo, às vezes precisamos de uma página inteira para descrever e pormenorizar o ambiente em que a ação transcorre. O cinema faz isso em dois segundos.

Escrevendo, você precisaria gastar todo o seu vocabulário e ainda ficar martelando a cabeça à procura da expressão certa pra descrever aquela pessoa com um rosto meio deformado. A imagem resolve o problema num frame. As imagens descrevem num só quadro um personagem esquisito, sem precisar de mais nada.

2.

Millôr repetiu o mesmo axioma, mas acrescentou com sua genialidade irônica: 

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Vai dizer isto com uma imagem.

Por mais que a frase de Confúcio seja uma verdade, existem coisas que não cabem nas imagens, não cabem num vídeo, não cabem num filme. Algumas coisas têm necessidade de palavras  —  inclusive a frase que diz que uma imagem vale mais do que mil palavras.

Por maiores que tenham sido os avanços do audiovisual nas últimas décadas, existe uma coisa que admiro muito e simplesmente não pode ser adaptada para além das palavras: o fluxo de consciência.

3.

No fluxo de consciência encontramos algo único que não vemos em nenhuma outra arte que não a literatura. Por mais que vejamos a consciência no cinema há décadas e no teatro há séculos  —  nas peças de Shakespeare, por exemplo — , com solilóquios dirigidos à plateia ou ao espectador ou por meio de uma narração feita pelo protagonista, o fluxo de consciência é exclusividade da literatura. E, ao meu ver, não funciona em nenhum outro lugar.

Para me ater a um exemplo contemporâneo, não há como não citar Cristovão Tezza e seus personagens com déficit de atenção. Em Um erro emocional, onde seu estilo, já visto antes, se consagrou, temos uma história simples: um escritor vai até a casa de uma mulher, se declara apaixonado por ela, entra, janta com ela e os dois tomam muito vinho. E o enredo consiste só nisso, do início ao fim. Mas, no meio desse enredo simplório, os dois personagens  — Donetti, o escritor, e Beatriz, sua leitora  —  se perdem nos próprios pensamentos, em longas e desordenadas digressões internas, fazendo com que mais planejem dizer do que propriamente digam. Nesses pensamentos vemos histórias fragmentadas do passado dos protagonistas, conjecturas do futuro, trocadilhos, e entre páginas e páginas de fluxo de consciência vemos uma fala ou outra, deixando claro que só se passaram no máximo trinta segundos.

4.

Aprecio muito a escrita concisa, sucinta como a de Rubem Fonseca. Mas admiro muito mais a condução de um bom fluxo de consciência  —  daqueles que nos dá acesso às mais profundas preocupações do personagem.

É por meio do fluxo de consciência  —  seja ele conduzido em primeira pessoa ou pelo estilo indireto livre  —  que temos acesso ao que o personagem pensou em dizer, mas nunca disse. É por meio do fluxo de consciência que conhecemos a desorganização da mente humana  —  a mesma desorganização com a qual convivemos quando começamos pensando em uma notícia que vimos na televisão e de alguma forma nossa mente nos leva a uma dissertação mental sobre vídeos de gatinhos fofos.

5.

Esse texto, longe de ser uma análise sobre o fluxo de consciência na literatura ou um tutorial sobre como utilizá-lo, serve apenas para mostrar uma visão minha (que provavelmente tive num dos meus fluxos de consciência diários), e por isso nem faço questão de prolongar o texto falando sobre a origem da técnica.

Nós estamos sempre pensando em alguma coisa. E em grande parte do tempo estamos pensando em coisas que não têm nada a ver com o que estamos fazendo. Eu posso estar trabalhando planilhas do Excel no trabalho enquanto penso numa história que eu quero contar pra um amigo à noite. Posso estar lavando a louça enquanto penso na fragilidade da nossa vida. Se é assim conosco todos os dias, por que na literatura deveria ser diferente?


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