O mito da inspiração




Fotografia: Oliver Thomas Klein

1.

Há anos ouço pessoas falando sobre certa inspiração que as motiva a criar. Ela vem e as move. Mas a verdade é que essa inspiração não existe. Ou pelo menos não da forma que algumas pessoas acreditam que exista: não existe aquela inspiração que move o artista, seja ele um escritor, um músico ou um cineasta. Não existe aquela inspiração que é seu baluarte, mas só aparece quando quer  —  e que frequentemente te deixa na mão.

2.

O mito da inspiração parece ter sido difundido principalmente como desculpa. Perdi a conta de quantas pessoas ouvi dizendo que escrevem, mas só quando têm inspiração. Às vezes sentam a bunda numa cadeira, se preparam para escrever e em cinco minutos desistem. “Hoje eu tô sem inspiração.”

A verdade, no entanto, é uma só: essa inspiração não existe e não adianta esperar por ela. Ela não vai aparecer nem se você se ajoelhar pedindo. A inspiração não é um lampejo divino que surge vez por outra na tua cabeça e que te move a escrever, desenhar, compor, esculpir ou seja lá o que você faça. O nome disso é ideia. E nem mesmo a ideia funciona dessa forma.

3.

Você se senta para escrever, como todos os dias. Encara a tela em branco. Nada surge. Então você desiste, levanta da cadeira, toma um banho e sai para caminhar. Enquanto caminha, olhando para um cachorro que está mijando no poste, você resolve que deveria escrever um conto protagonizado por um cachorro e explorar seu comportamento. Volta para casa, escreve o conto de duas mil palavras, revisa duas vezes, lapida o texto, corta partes desnecessárias, envia para alguns amigos, aceita algumas sugestões, rejeita as sugestões imbecis e está pronto o seu conto.

A pessoa do parágrafo acima poderia ser qualquer uma de nós. Essa pessoa partiu de um cachorro para escrever um conto interessante de duas mil palavras. Mas ela não fez isso só porque a inspiração surgiu. Ela teve uma ideia. E, mesmo assim, foi ela quem teve de buscar a ideia. E, mesmo depois de encontrá-la, ela precisou de muito esforço e tempo para que dali saísse algo decente.

4.

Antes de dissertar sobre o assunto, é bom deixar claro: o que alguns chamam de falta de inspiração é, na verdade, algo muito comum. Se chama bloqueio criativo  —  e sobre como lidar com ele falo daqui a pouco. Antes, vamos falar um pouco sobre o fazer artístico.

5.

Arte é, mais do que qualquer coisa, técnica. E, antes de mais nada, suor.

A romantização dá a ideia de que os artistas têm algo especial, um quê de genialidade que nasce com eles; por isso estão sempre cheios de inspiração; por isso estão sempre produzindo conteúdo; a arte é algo intrínseco do artista, que surge do seu âmago e nada nem ninguém pode mudar isso.

Mas não. Artistas não têm nada de especial. A escrita é um trabalho como qualquer outro. A pintura é um trabalho como qualquer outro. A grande diferença do trabalho artístico é que este é um exercício criativo. Fora isso, a arte é composta de erros e acertos, estudo de técnicas, muita coisa descartada no lixo, muita coisa genial mal desenvolvida e muita ideia ruim bem aproveitada.

A melhor ideia do mundo não serve para absolutamente nada se você não sentar a bunda na cadeira e começar a escrever. A melhor ideia do mundo não tem utilidade alguma se você não estudar as técnicas dos seus autores favoritos, ou daqueles que você não gosta, ou daqueles que você nunca nem ouviu falar.

A ideia, no fundo, acaba tendo importância menor do que geralmente lhe é atribuída, pois a ideia pode vir de qualquer lugar — a técnica não.

6.

As ideias podem, inclusive, vir do estudo das técnicas. Por exemplo, na primeira vez que li sobre o discurso indireto livre senti vontade imediata de testá-lo na prática. Lembro que li no livro Como funciona a ficção, do James Wood, sobre o uso da técnica e exemplos de autores que utilizaram-na.

Naquele momento, eu não tinha ideia alguma. Mas eu tinha uma técnica. E queria usá-la a qualquer custo. Então comecei a escrever um conto explorando o que o personagem sentia, fazendo com que o personagem participasse ativamente na narração, mesmo que esta fosse em terceira pessoa.

No fim, gostei do conto. Devo ter publicado no meu blog (o antigo blog, que foi hackeado). A ideia era boa — mas não passava de um exercício para explorar uma técnica que havia aprendido.

De qualquer forma, o ponto é o seguinte: uma técnica pode te dar uma ideia, mas uma ideia não pode te dar a técnica necessária para explorá-la.

7.

Mas, afinal, a palavra inspiração existe e tem um significado. Segundo o Aurélio, qualquer estímulo ao pensamento ou à atividade criadora.

E é exatamente isso.

A inspiração não passa de um estímulo que pode vir de qualquer lugar do universo. A inspiração para o texto de um escritor pode vir, por exemplo, de uma conversa que ouviu num restaurante. A inspiração de um pintor pode vir, por exemplo, de uma menina de oito anos de idade com a mãe na chuva. A inspiração de um músico pode vir, por exemplo, de um romance que ele leu que se passa inteiramente entre conversas num restaurante. A inspiração pode vir enquanto você caga e pensa em algo que você fez semana passada ou que vai fazer no mês que vem.

8.

Sim, a inspiração existe. Mas, com raras exceções, é você quem busca por ela.

É você quem vai ter que parar tudo que está fazendo, abrir o Word e encontrar uma saída para o buraco no qual você meteu o personagem do teu romance. É você quem, duas semanas depois de começar a escrever aquele conto, vai ter que pensar num final coerente e impactante para ele.

9.

Sim, algumas ideias surgem num estalo. Só que de nada elas servirão se você não trabalhar duro para aproveitá-las.

Após a ideia de escrever um poema em que o eu-lírico se comunica com um violão quebrado, você precisa pensar em como fazer isso. Você precisa encontrar alguma técnica que seja útil para fazê-lo. Você precisa escrever e reescrever até que fique da forma que você havia planejado.

10.

Esse ano fiquei alguns meses sem produzir muita coisa. Por um tempo acreditei até mesmo que nunca mais produziria nada que preste (e talvez eu nunca tenha produzido, mas esse não é o ponto). Mas a poesia, que nunca foi a minha praia, parecia surgir com mais facilidade do que nunca.

Só então que percebi o motivo. Não era porque minha vocação para a prosa havia se perdido nem porque uma vocação para poesia nascera. Era porque, na correria do dia a dia, na falta de tempo, eu preferia ler as poesias mais curtas e, quando escrevia, era só o que eu fazia.

Logo eu descobri que, quando quisesse escrever uma poesia, bastava abrir um bloco de notas e começar a escrever. E quando quisesse escrever um conto bastava abrir o Word e começar a escrevê-lo. E quando quisesse falar sobre algum assunto bastava abrir o Medium e começar a dissertar sobre ele.

11.

“Mas, Kalew, falando assim parece que você não precisa de ideias ou que você nunca tem bloqueio criativo.”

Mais pro início do texto prometi que falaria sobre como lidar com o dito cujo e eu não esqueci disso. (Na verdade eu esqueci, sim, mas revisei esse texto antes de publicá-lo.)

12.

O bloqueio criativo para mim surge todos os dias, na verdade. Mas com o tempo aprendi a lidar com ele. Percebi que quanto menos eu leio, menos “inspiração” eu tenho. Basta ler alguma coisa que eu goste para a vontade surgir e o bloqueio sumir. Na maioria dos casos, revisar meus próprios textos resolve.

Infeliz ou felizmente, lidar com o bloqueio criativo é um processo totalmente subjetivo e, por isso, os remédios variam de pessoa para pessoa. Mas não se preocupe: você vai encontrar uma forma de lidar com ele (ou não).

Para não se sentir sozinho, saiba que qualquer escritor passa por isso. Para lidar com o bloqueio (ou, para ser mais específico, para buscar inspiração), Saramago fazia perguntas hipotéticas; Ian McEwan ouve as histórias dos pais e avós com atenção; McCarthy conversa com as pessoas. Todo escritor acaba encontrando uma maneira — e nenhum deles precisa das musas da mitologia grega.

Outro texto interessante, este especificamente sobre o bloqueio criativo, pode ser lido aqui: http://flavorwire.com/343207/13-famous-writers-on-overcoming-writers-block/13

13.

Por fim, pergunto a vocês: qual seria o mérito de um escritor se é inspiração o que o move? Qual é a utilidade dele se o conteúdo que ele produz é involuntário? Para que os escritores deveriam estudar e ler muito se, no final, o que importa é a inspiração?

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