George, Lennie, amizade e solidão


Não importa se você assistiu ou não Lost. Não importa se você gostou ou não do final. Uma coisa todos que assistiram sabem: Lost nos dá muitas (e vejo que excelentes) indicações de livros. Ao longo das seis temporadas, as referências vão surgindo de formas implícitas (títulos de episódios ou ações dos personagens) e às vezes de uma forma descarada (como quando Locke entrega a Ben Os Irmãos Karamázov, logo na segunda temporada, ou no clube do livro dos Outros no primeiro episódio da terceira, ou quando algum personagem faz uma citação e diz o nome do livro).

Sabendo disso, alguns dias atrás estive revendo certas cenas em que os personagens citam obras literárias. Um diálogo entre Ben e Sawyer, que citaram Ratos e Homens, de John Steinbeck, me chamou especial atenção e eu lembrei já ter visto a obra ser citada outra vez (e vi depois que dava um enorme spoiler). Resolvi ler para saber do que aqueles dois estavam falando.

Consegui uma versão em ebook logo no dia seguinte e resolvi dar uma olhada no primeiro capítulo, daquele jeito descompromissado de quem não tá a fim de ler mas quer sacar qual é a da escrita do cara. Li todos os seis capítulos no mesmo dia (o livro é bem curto) e acabou que fiquei muito impressionado. Vamos ao livro.

O livro narra um trecho bem específico, praticamente um fim de semana, de dois personagens bem diferentes. George é um homenzinho pequeno e bem esperto, enquanto Lennie é grande, forte e totalmente retardado, beirando o infantil. Os dois haviam acabado de sair de uma fazenda, fugidos, por culpa do Lennie, que arrumou treta e fez os dois terem que meter o pé do trabalho e procurar outro serviço pelo interior da Califórnia. Os dois chegam perto da nova fazenda em que vão trabalhar e conversam, com o sotaque caipira que toma conta de todos os diálogos, sobre a nova morada, sobre o sonho americano que alimentam de ter a própria terra e sobre o quanto George estaria bem de vida sem Lennie.

O livro foi publicado em 1936, naquele período que se seguiu à Grande Depressão dos EUA. Por isso, vemos no livro as consequências da crise gigantesca e os trabalhadores rurais como os protagonistas vivendo à margem, ganhando pouco, cheios de sonhos e ambições mas sem poder concretizar nenhuma dessas vontades. Lennie, com seu jeito de criança, pede exaustivamente a George que repita como será a terra deles, a casinha, os coelhos, os animais, como vão ganhar dinheiro.

Eles começam a trabalhar na fazenda e de cara conhecemos os personagens do livro. Temos Candy, um velho sem mão, Slim, o carroceiro que manda no pedaço, Crooks, um negro desprezado, além de outros personagens. Mas é quando aparece Curley, o filho mimado do patrão, que a história começa a ficar mais tensa. Curley é um ex-lutador que gosta de arrumar briga com quem aparecer pela frente. Sua esposa, com quem casou recentemente, gosta de se insinuar aos trabalhadores, tornando as relações lá dentro prestes a explodir. E acontece.

Pela sinopse e pelas descrições dos personagens, imaginamos que o que vemos nesse livro são personagens de filme da Sessão da Tarde interpretados por Adam Sandler: o baixinho esperto, o grandalhão idiota, o filho do patrão bolado, a esposa do filho do patrão que se insinua pra todo mundo. Mas o livro está bem longe dessa superficialidade.

Os personagens têm muito mais densidade do que aparentam ter. A esposa do Curley, que parece ser só uma mimada que não se satisfaz com o marido, revela aos poucos suas frustrações, o que deixou de fazer na vida, a solidão que a fazenda lhe causa. A relação entre George e Lennie é tocante, sentimental, e isso nos mostra que eles não são nem um pouco planos. Os personagens servem para tratar de diversos temas bem pertinentes, como a forma que os negros eram tratados na sociedade, o papel da mulher, a pobreza, a solidão, a discriminação com relação aos inválidos para o trabalho.

O tema da solidão, especificamente, nos chama muito a atenção. Na citação feita por Ben, em Lost, percebemos que o livro trata desse assunto, numa fala de Crooks, o negro, se dirigindo a Lennie:

“Qualqué pessoa fica loca se num tivé ninguém. Num faiz diferença quem tá co’a gente, só precisa tá junto. [...] Vô dizê pr’ocê que a gente se sente tão sozinho que até fica doente.”


Mas é na amizade entre George e Lennie que o livro inteiro gira em torno. George sabia há muito tempo que seria melhor sucedido sem Lennie. Não teria sido obrigado a sair da última fazenda em que havia trabalhado; não teria arrumado problema com os fazendeiros; não teria que se preocupar com uma pessoa que mal conseguia pensar sozinha; não precisaria falar por si e pelo amigo. Mas ele não fez isso, não abandonou Lennie, não deixou ele ir embora quando ele se ofereceu para ir para uma caverna se virar sozinho. E mesmo no final trágico, num suspense digno de Hitchcock, vemos o quanto George queria ver Lennie feliz.

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