Empatia e personagens


1.


Quando criança, lembro de olhar para dentro da casa dos meus vizinhos, observar o vaivém de pessoas na rua, os comerciantes nas lojas ou bancas de esquina, e me fazer sempre a mesma pergunta: qual é o sentido da vida dessas pessoas?


Na minha cabeça limitada não cabia entender que outras pessoas tinham suas próprias vidas e eram tão recheadas — ou não — de sentido quanto a minha. Não conseguia imaginar que aquelas pessoas todos os dias iam trabalhar, que faziam suas tarefas em casa, que também estudavam, que também se interessavam por atividades e assuntos diversos — não conseguia imaginar que elas não eram eu. E isso se dava pela falta de algo básico e ao mesmo tempo complexo: empatia.


2.


Conforme crescia, aprendi a imaginar a vida daquelas pessoas além do que estava ao alcance da minha visão. Vi que a vida do meu vizinho não se limitava às horas em que eu o via ficar deitado no sofá assistindo televisão nos fins de semana. Vi que a vida do meu colega da escola não se limitava às horas em que ele passava na escola — ele também brincava em casa como eu, também pesquisava coisas inúteis e curiosidades na internet, também assistia desenhos, também fazia birra para os pais. E, à medida que conhecia pessoas e desenvolvia empatia, notei também a enorme diferença que havia entre a minha vida e a dos outros — meu colega não brincava com o pai, que passava o dia fora; o outro não tinha mãe; o outro morava com a avó; o outro passava o dia com uma babá; o outro tinha irmãos; entre outras inúmeras coisas que acabei conhecendo e/ou vivendo.


E é nisso que consiste a empatia da qual aqui falo: a capacidade de enxergar a vida pelos olhos do outro — entender que há um sem-número de eus.


3.


Acredito — e não falo isso só por percepção pessoal, mas também por inúmeras coisas que leio e copio sem querer querendo — que uma das grandes chaves para construir personagens na literatura está na empatia. Você não pode construir personagens baseados unicamente em você (pode, sim, mas uma hora isso cansa e presumo que você queira criar mais de um personagem na sua vida). E, para criar bons personagens, você precisa imaginar o mundo pelos olhos deles.


Se seu personagem é criança, faz parte do processo de criação enxergar o mundo pelos olhos de uma criança (e o bom é que todos já fomos crianças, o que facilita um pouco o processo). Se criamos um personagem deficiente físico, precisamos saber das dificuldades que ele passa todos os dias. Se criamos um personagem criminoso, precisamos enxergar o mundo pelos olhos dele também — e isso inclui saber as motivações para ele fazer o que faz.


4.


No que se refere a personagens bons ou ruins, para exercermos a empatia é essencial parar de dividir as coisas com essa dicotomia básica do bem e do mal. Vejo muitas pessoas em grupos de Facebook perguntando como criar vilões verossímeis, vilões que despertem interesse e empatia do leitor — e é simples: não criando vilões.


Quando você cria um vilão, você já fadou seu personagem ao mal. Se o objetivo é despertar empatia, precisamos entender que as pessoas não são essencialmente boas ou ruins, mas que agem por interesses e têm motivações complexas — o “vilão”, nesse caso, pode ser simplesmente alguém que tem objetivos contrários ao do protagonista, o que não torna nenhum dos dois bom ou ruim.


Seria preguiçoso, por exemplo, criar um personagem que bate na mulher simplesmente por gostar de bater (não estou negando a existência desse tipo de pessoa). Mais preguiçoso ainda é criar um personagem que mata por querer matar. (Por mais que existam psicopatas que o fazem, acho preguiçosa a maneira como alguns romances policiais colocam a solução de um caso dessa forma — meu vilão matou porque quis, nada mais, nenhuma motivação, nenhum trauma, nenhum histórico: matar por matar.)


5.


Um exemplo prático: seu personagem é um ladrão. No começo do seu livro, o ladrão assalta uma mulher que estava passando na rua. Logo concluímos: esse personagem é mau.


Mas por que o ladrão fez isso? Por que ele decidiu assaltar uma mulher? Por que ele precisava daqueles cinquenta reais? Ele é, por essência, ruim? Isso torna a mulher boa?


Os “cidadãos de bem” nomeariam essa atividade simples de empatia de “defender bandido”. Não estou aqui dizendo que o ladrão é uma pessoa necessariamente boa nem louvando o ato do roubo, por qualquer que seja a motivação. Mas o ficcionista pode — e deve — ir além desse julgamento e entender que as pessoas são movidas por interesses. O ladrão roubou porque precisava pagar uma dívida? O ladrão roubou porque queria comprar coisas ilícitas? O ladrão precisava roubar? O ladrão roubou para dar de comer aos filhos? Nesse último caso, poderíamos dizer que o roubo é justificável?


Não cabe a nós dizer. Nos cabe apenas largar a preguiça, que causa essa unilateralidade e esse maniqueísmo todo, pra desenvolver os personagens, suas motivações, as justificativas — aceitáveis ou não — que eles dão para o que fazem, e deixar que o leitor julgue tais ações e motivos como e se quiser.


6.


E isso serve não só para os personagens que de cara julgaríamos ruins — serve para os “mocinhos” da história.


Tá certo, seu protagonista salvou uma mulher de um assalto. Mas por que ele fez isso? Fez isso por compaixão? Fez pra bancar o herói? Fez pra impressionar alguém? Fez porque ele achou a mulher bonita? Faria o mesmo se achasse a mulher feia? Faria o mesmo por qualquer outra pessoa ou preferiria se manter longe de confusão, no máximo ligando para a polícia?


7.


Dito de forma simples, acho limitada a ideia tanto de personagens bons por natureza quanto de personagens ruins por natureza. Acho que personagens devem ter desenvolvimento e profundidade, e isso exige motivação para suas ações.


Não podemos, claro, exigir isso de qualquer personagem. Precisamos admitir que não podemos desenvolver qualquer atendente de padaria que aparece em nossas histórias. Logo, me refiro aqui aos personagens principais e no máximo os secundários.


Mas acho que a empatia é o grande barato da literatura — ler A metamorfose e se sentir na pele daquele homem metamorfoseado em barata; ler A morte de Ivan Ilitch e ver o mundo pelos olhos daquele homem acamado; ler A estepe e se sentir como o assustado Iegoruchka; ler Ratos e homens e conhecer os dramas daqueles dois caipiras; ler Enquanto agonizo e ver como pensa cada membro daquela família.


Uma pesquisa mostrou que ler ficção nos torna mais empáticos e é exatamente disso que eu falo. Eu já sou eu o tempo todo, todos os dias — o que eu quero na ficção é saber como os outros vêem a vida.


8.


No entanto, não é porque o personagem não é importante ou não tem destaque que precisamos dar a ele características comuns e preguiçosas — os famosos clichês.


Não são clichês o que vemos em Janela Indiscreta, clássico do Hitchcock. Com a perna quebrada, um fotógrafo não pode sair de casa e passa o dia sentado defronte à janela, observando com binóculos ou lentes a vida dos vizinhos. São os pequenos detalhes da vida daquelas pessoas que observamos que nos fascinam: o músico com bloqueio criativo, o casal que trata o cachorro como filho, a dançarina aplicada, o casal que dorme na varanda por causa do calor. São esses pequenos detalhes que tornam os personagens vívidos e reais, algo que vai além de uma descrição fria sobre a aparência de um personagem.


9.


Em Como funciona a ficção, do James Wood, o autor cita o exemplo de outro filme ao falar sobre “engatar” personagens — torná-los vivos. Em O eclipse, de Antonioni, Monica Vitti visita a bolsa de valores de Roma, onde trabalha seu noivo. O noivo mostra pra ela um homem que havia acabado de perder 50 milhões de liras. Ela resolve seguir o homem, o homem dá umas voltas, vai em um bar, depois num café, pede uma água e mal bebe. Nesse momento, no entanto, ele faz alguns rabiscos num papel e deixa ele na mesa. O que imaginamos que seja? Vários números embaralhados, cálculos sobre a fortuna que ele tinha acabado de perder. A personagem se aproxima e pega o papel. O que era? O desenho de uma flor.


Não voltamos a ver esse homem no filme, mas não podemos negar que o diretor nos revelou algo interessante sobre esse personagem-expresso: o temperamento dele sobre pressão. Ele nos motivou a nos colocar no lugar daquele homem, fazendo com que o espectador imaginasse a pressão dele diante da catástrofe financeira, mas confundiu nossas expectativas. Não é isso que buscamos em um personagem?


Mesmo que o personagem não seja principal nem secundário, talvez nem mesmo sendo relevante, isso não significa que não possamos torná-los interessantes.


10.

Em suma, o exercício de imaginar a vida pelos olhos das outras pessoas é ótimo e essencial quando o assunto é literatura e ficção. Para fazer isso, no entanto, devemos parar de pensar nos personagens como características e dar a eles personalidade — vida. E isso só é possível desenvolvendo aquela capacidade da qual falei exaustivamente nesse textinho: empatia.

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