Luiz Ruffato c'est moi



Pra uns, tendência. Pra outros, algo que sempre esteve presente na literatura. O fato é que a chamada autoficção está aí e tem nos presenteado com excelentes obras — quer assumidamente autobiográficas ou não. Nesse gênero temos no Brasil excelentes nomes: Michel Laub (do qual já falei) e Cristovão Tezza são meus favoritos e o último um dos mais falados.

O livro De mim já nem se lembra, do famigerado Luiz Ruffato, é o que muitos descreveriam com esse termo — a começar pelo nome da família do protagonista do livro: Ruffato. Além disso, temos um personagem secundário chamado Luiz, os nomes reais de sua mãe, seu irmão, seus familiares e a cidade em que realmente nasceu e foi criado: Cataguases, em Minas Gerais. Tudo isso daria ao livro, na verdade, mais um tom de autobiografia que de autoficção.

Mas vamos primeiro à história do livro.

Ruffato inicia o romance com uma parte chamada Explicação necessária, em que esclarece um pouco sobre sua família e sua mãe. Ao abrir uma pequena caixa que estava no quarto da mãe falecida, ele encontra um maço de cartas amarradinho, todas escritas pelo irmão. O irmão, logo somos informados, morreu cedo, aos vinte e sete anos, em um acidente automobilístico.

E o livro consiste nisso: todas as cartas nos são mostradas, abrangendo o período entre a saída de Célio da casa dos pais, em Cataguases, até a última carta enviada antes de morrer.

Célio sai de casa e se muda para São Paulo (e logo em seguida para Diadema) em busca de trabalho e de construir sua vida. Entre as cartas endereçadas à mãe vemos de tudo: novas paixões, entusiasmo pelo trabalho, colegas, mudança constante de endereço (Célio não consegue parar quieto em uma pensão). E é por causa da época em que se passa que o livro carrega um dos seus maiores méritos.

As cartas abrangem de 1971 até 1978, e entre os inúmeros eventos vemos o crescente envolvimento de Célio com o trabalho e logo em seguida com o sindicato — é assim que Luiz Ruffato nos dá um retrato a muitos implícito da vida na ditadura militar e seu efeito (o livro termina nas vésperas das greves no ABC que culminaram na fundação do Partido dos Trabalhadores).

Um livro, acima de tudo, sentimental. É impossível não se sentir tocado pelo sentimentalismo do filho Luiz descobrindo as cartas da mãe depois de ela falecer, muito menos da preocupação de Célio com a família morando longe e a vontade de voltar para Cataguases, ao mesmo tempo sentindo cada vez mais que isso não aconteceria nunca. É um livro que você sabe como começa e como termina desde a introdução, mas é impossível ignorar ou deixar de ler.

Se você tem o costume de assistir entrevistas de autores, deve saber que a pergunta mais chata e repetitiva que um escritor pode receber é: Esse personagem é baseado em você? (Parece que os jornalistas ficaram desconfiados de todos os autores desde que o Flaubert disparou o Emma Bovary c’est moi.)

Em De mim já nem se lembra não foi preciso essa pergunta pois o próprio Ruffato decidiu colocar o nome dele e da família no livro — mas a curiosidade de nós leitores é infinita. Questionado sobre até que ponto o livro é inspirado na história real da família de Luiz Ruffato, ele responde da seguinte forma a’O Globo:

“Tudo que está no livro é verdade, mas tudo que está no livro é ficção. Meu irmão, minha mãe e outros parentes são citados com os nomes reais, há um personagem secundário com meu nome, as questões nas cartas do irmão são reais, o relato sobre a morte da mãe é próximo do que aconteceu comigo. Mas quem disse que as cartas existem? Não garanto. Toda literatura, de uma forma ou de outra, é autoficção, mas não gosto daquela que se ‘vende’ como autoficção.”

A graça da literatura — e da autoficção — é exatamente essa: até que ponto aquele personagem ou aquela história é baseada no autor ou no que ele viveu? Nunca saberemos. Nem precisamos.


***


De mim já nem se lembra
Luiz Ruffato
Formato 14cm x 21cm 
144 páginas
Companhia das Letras



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