Um conto estendido ou um romance condensado?

 
Recebi esse livro pela TAG no mês de junho. Eu havia pedido para receber Stoner, do mês de abril, que eu não havia lido, mas acabou que recebi o mais recente do Ian McEwan mesmo (soube qual era antes pela sinopse, mesmo sem ter lido). Hesitei um pouco, mas decidi que leria todinho, por mais que tivesse noção do que estava por vir.

O livro narra a história de Fiona Maye, uma juíza inglesa do Tribunal Superior e especialista em Direito da Família (igual àquela apresentadora do SBT). Logo de cara sabemos que ela é respeitada, imparcial, inteligente, de acordo com seus próprios colegas.

Todo esse sucesso profissional, no entanto, é contraponto para o fracasso da vida privada (premissa que é tão rara quanto casal adolescente em livro jovem adulto). Entrando na casa dos sessenta anos, ela se arrepende amargamente de não ter tido filhos e vê seu casamento desmoronar quando o marido faz as malas e resolve sair de casa.

Assim que isso acontece, aparece para ela um caso de um menino de 17 anos, quase 18, com leucemia e supostamente precisando de uma transfusão de sangue. O hospital quer aplicar a transfusão a todo custo, mas a família do jovem, que é Testemunha de Jeová, se recusa a aceitar o procedimento.

Desde a primeira página o leitor se depara com algo que vai perdurar por todo o livro: McEwan vai na contramão daquele lema dos escritores de mostrar em vez de dizer. O tempo todo anuncia ao leitor algo que ele nunca mostra. Em outros casos, até mostra, mas não nos poupa dos anúncios. Logo na segunda página, sobre o marido dela:

“Ele tinha feito uma declaração chocante e lhe imposto um fardo insuportável.”

Pode até ser chocante e insuportável. Mas pra que anunciar algo que ele iria (ou deveria) mostrar logo em seguida por meio dos diálogos? Fazer esse tipo de afirmação antes de mostrar é algo sempre problemático e assunto para um texto à parte.

E, ao mesmo tempo em que ele deixa de mostrar inúmeras vezes no livro, em certas cenas ele mostra demais. Isso deveria ser bom, não fosse a total irrelevância das passagens em que ele faz isso — como em uma das últimas cenas do livro, onde o autor descreve todo um concerto com a presença de gente importante da capital inglesa, com detalhes sobre os presentes, a melodia que Fiona apresenta ao público no piano, o acompanhamento de Mark Berner, longas digressões sobre música e a relação de Fiona com ela, os aplausos do público e, por fim, a única parte importante de toda a cena, minúscula, em que a música que ela toca a lembra Adam e ela sai correndo do local. Ou os detalhes sobre a inúmera quantidade de casos com os quais ela lida, dados sobre processos judiciais, descrições sobre os problemas, sobre os envolvidos, informações sobre suas sentenças e uma grande quantidade de matéria de Direito, tudo descrito em uma linguagem quase clínica.

Outro ponto fraco do livro é justamente esse: a narração sempre distante dos personagens. Em nenhum momento me senti na pele de Fiona. Em nenhum momento me senti próximo dos personagens — a narração é fria como uma sentença de tribunal, como se Fiona, e não McEwan, tivesse escrito o romance (uma ótica que seria bem interessante e otimista para defender o livro).

Como se não bastasse o psicológico quase inexplorado das personagens, temos um Adam Henry anunciado como muito maduro para sua idade, 17 anos, mas que na prática se mostra um moleque de 11 encantado por estar descobrindo a música e a poesia. (Fico imaginando como devem ser os jovens de 17 anos que o Ian McEwan conhece. Quando vi que consideravam o Adam inteligente pra idade dele, me senti superdotado.)

Embora não muito úteis para a história, alguns casos descritos são realmente intrigantes, como o caso dos gêmeos siameses. A impressão que tive, no entanto, é de que o livro é mais extenso do que deveria, tanto que o caso principal só é tratado após longas descrições da rotina de uma juíza da Vara de Família e relatos de casos passados, para só depois de 60 páginas (em um livro de 200) começar a tratar do caso de Adam Henry. Outras cenas, como a do concerto já mencionado ou sua turnê de julgamentos pela Inglaterra, parecem ter sido colocadas só para estender um romance que, não fosse isso, seria um conto — deixando de explorar pontos importantes, como o aprofundamento de Fiona e Adam, os personagens mais importantes, e suas relações familiares. Parece que o autor quis jogar tudo que tinha pesquisado dentro do livro.

E mesmo essa pesquisa falhou em certos aspectos, como quanto a certas crenças das Testemunhas de Jeová e determinadas expressões que teriam sido corrigidas pesquisando com um pouco mais de boa vontade.

A construção de Adam, dos casos relacionados a religião e o desfecho do livro dão a impressão de completa aversão às religiões por parte do autor, tratando essas questões sob uma visão dicotômica — como se tudo se resumisse puramente a razão ou fanatismo.

Apesar de tudo, o romance me prendeu bastante durante o julgamento que ocorre na metade do livro, onde a dicotomia já mencionada parecia não existir, ambos os lados no tribunal apresentando argumentos fortes. O diálogo e o desenrolar da cena chegam a empolgar e, mesmo distante e fria, a linguagem usada por McEwan é elegante. Outro ponto interessante são as citações e referências que Fiona usa em suas sentenças, aproveitando outros livros que não os de leis, além das inúmeras menções a música erudita e literatura.

No fim, porém, é um livro que parece enrolar em cenas irrelevantes e dar pinceladas superficiais nos temas significativos. Afinal, A balada de Adam Henry foi um conto estendido ou um romance condensado?
*** 

 
A balada de Adam Henry
Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
Formato 14cm x 21cm 
200 páginas
Companhia das Letras

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