Um livro sobre nada



Na época em que publicou Madame Bovary, Flaubert disse que almejava escrever um livro sobre nada, que se mantivesse por sua linguagem e estilo, sem ligações externas. Sete anos após a morte de Flaubert, Tchékhov publicou A estepe, ou História de uma viagem, que parece se encaixar perfeitamente nessa descrição.

A estepe foi a narrativa mais longa publicada pelo autor russo até então. Mais escritor do que médico, Tchékhov publicava contos há um tempo em algumas revistas literárias, mas nunca havia escrito algo mais longo, como a novela em questão, publicada em 1888, quando tinha seus 28 anos de idade.

Acredito que o personagem principal do livro não seja o menino Iegóruchka nem seu tio nem o padre nem qualquer um dos personagens que são descritos na narrativa, mas a própria estepe, um dos cenários mais marcantes do sul da Rússia. A estepe é repetitiva e tediosa — mas a narrativa de Tchékhov não. O próprio Tchékhov, na época, disse que sua novela mais parecia uma enciclopédia da estepe, e que A estepe é na verdade um amontoado de histórias naquele cenário. A paisagem é descrita de uma forma marcante, mais parecendo uma pintura escrita do que uma descrição simples.

Enquanto isso, diante dos olhos dos viajantes, se alastrava a planície vasta, infinita, cortada por uma cadeia de colinas. Comprimindo-se e espreitando umas por trás das outras, essas colinas se fundiam numa ondulação que se estendia à direita, da estrada até o horizonte, e desaparecia na vastidão lilás; a gente anda, anda e não consegue distinguir onde ela começa e onde acaba… O sol já espiava atrás da cidade e, calmo, sem alarde, dava início a seus trabalhos.

Tchékhov usa metáforas interessantes ao descrever a imensidão da estepe, da qual não se sabe onde começa nem onde termina, e, interagindo com ela, nos faz acompanhar a jornada de Iegóruchka, que viaja para estudar em uma cidade maior. Inúmeros acontecimentos se amarram entre os oito capítulos da obra, mas não ocorre nada de extraordinário e parece na verdade um livro sobre nada — a monotonia da estepe está presente na narrativa inteira, e entre os acontecimentos está o desvio no caminho que Iegóruchka seguia com seu tio para ir em um comboio, a doença que o menino pega, o ódio que ele sente por Dímov, um valentão do comboio, e em toda essa história Tchékhov cria personagens marcantes, como o desiludido e, de certo ponto de vista, invejoso Solomon, personagem sarcástico e bem construído, o hospitaleiro Moissei, a linda condessa Dranitskaia, além do tio do garoto, o padre, e até alguns com participações menores.

Em determinadas partes, Tchékhov utiliza muito bem o ponto de vista do menino Iegóruchka, que às vezes parece estar tendo alucinações, e em outras reflete sobre sua própria relação com sua família e consigo mesmo. Em certa parte, ele fantasia a morte de seus parentes:


Visualizou a avó dentro do caixão escuro e apertado, indefesa e abandonada por todos. Imaginou como ela acordava de repente e, sem entender onde estava, batia na tampa do caixão, pedindo socorro e, no fim de tudo, sucumbindo ao horror, morria outra vez. Imaginou mortos sua mãe, o padre Khristofor, a condessa Dranitskaia, Solomon. No entanto, por mais que tentasse imaginar a si mesmo no túmulo escuro, longe de casa, abandonado, indefeso e morto, não conseguia; pessoalmente, para si mesmo, ele não admitia a possibilidade da própria morte e sentia que nunca ia morrer…

E a avó, de fato morta, já havia sido citada nas primeiras páginas, quando Iegóruchka olhou para as cerejeiras, abaixo das quais estava enterrada:


por trás do muro, as cruzes brancas e os mausoléus espiavam alegres, escondidos no meio da folhagem das cerejeiras, que vistas de longe pareciam manchas brancas. Iegóruchka lembrou que, quando a cerejeira floresce, aquelas manchas brancas se misturam com as flores da árvore num mar branco; e quando as cerejas amadurecem, as cruzes e os mausoléus brancos ficam semeados de pontos vermelhos como sangue. Do outro lado do muro, sob as cerejeiras, dormiam dia e noite o pai e a avó de Iegóruchka, Zinaida Danílovna. Quando a avó morreu, a puseram num caixão comprido, estreito, e cobriram seus olhos com duas moedas de cinco copeques, pois eles não queriam se manter fechados. Até morrer, ela foi muito ativa, sempre trazia da feira roscas cobertas com sementes de papoula, mas agora ela dormia, dormia…

E são essas reflexões e pequenas observações, originadas do estado de aparente confusão do menino, que mostram a maestria de Tchékhov, que soube não só dar poéticas e detalhadas informações sobre a estepe, mas também pintar retratos do psicológico de seus personagens, explorando bem todo esse conjunto, a descrição da paisagem, os diálogos bem construídos, a consciência, a história, a tristeza de Iegóruchka, onde o narrador nos diz que ele “se sentia extremamente infeliz e tinha vontade de chorar”.

O recurso do discurso indireto livre está presente no livro inteiro e acaba nos trazendo a pergunta: essa observação é de Iegóruchka ou de Tchékhov? Quem está nos dizendo que os moinhos distantes parecem pequenos homens agitando os bracinhos?


Em outro trecho, Iegóruchka está observando mais uma vez a região:

Sem nada para fazer, Iegóruchka pegou um grilo no capim e, dentro do punho fechado, ergueu-o até a orelha e por muito tempo ficou ouvindo como ele tocava seu violino.

A estepe é um relato melancólico e incômodo, sobre o nada e sobre a vastidão da estepe — também o nada —, mas que consegue ser incrivelmente cativante.


***

A ESTEPE (História de uma viagem)
Anton Tchékhov
Tradução: Rubens Figueiredo
Formato 13cm x 20cm
144 páginas
Companhia das Letras
Selo Penguin

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