Auschwitz de um novo ponto de vista










O livro é narrado em primeira pessoa por um judeu de uns quarenta anos de idade que mora em São Paulo, mas foi criado em Porto Alegre. Aos treze anos, João, o único não-judeu de uma escola judaica, depois de tanto sofrer nas mãos dos colegas judeus, é consolado por seu pai, que promove um falso Bar Mitzvha em seu aniversário. O narrador e os colegas comparecem ao aniversário e, como de costume, começam aquela coisa de jogar o moleque treze vezes pra cima. Na última, em vez de segurá-lo, eles dão um passo para trás e deixam João dar com as costas no chão, brincadeira que lhe rendeu um tempinho no hospital. O livro já começa com a posterior culpa do narrador em decorrência disso.

O primeiro fato que é mencionado no romance é o de que o avô do narrador não gostava de falar do passado. Judeu erradicado no Brasil, havia sobrevivido a Auschwitz, construiu família no país e dedicou seus últimos meses de vida a escrever uma série de verbetes utópicos sobre como seria um mundo perfeito em sua visão. Quando seu filho, pai do narrador, tinha 14 anos, se suicidou dentro do quarto. E assim o narrador começa a contar a história de seu avô, o pouco que se sabe, história passada por seus pais e parentes.

É interessante como cada uma das três gerações — filho, pai e avô — teve um momento de ruptura. Pra começar, o avô sobreviveu a Auschwitz, tendo isso marcado sua história de vida. O pai, quando tinha 14 anos, se deparou com a cena do pai dele, avô do narrador (essa de personagem sem nome às vezes confunde as coisas), morto na escrivaninha do quarto, onde dedicava-se a escrever seus verbetes. O filho, por fim, teve sua vida marcada pelo incidente com João, quando propositalmente deixou o gói cair no chão em sua festa de aniversário.

Então somos levados a outras diferenças que relacionam os três. O avô, mesmo tendo sobrevivido a Auschwitz, nunca falou nada sobre, nunca escreveu nada sobre, nunca relatou uma palavra sobre Auschwitz. O pai, em oposição a isso, falava incessantemente sobre Auschwitz, sobre o que passaram os judeus nas mãos dos nazistas, sobre as condições desumanas que passavam os prisioneiros, sobre as formas que eles morriam, ao que eram sujeitados, e repetia esse discurso sem cessar para o filho, colocando a culpa de tudo de ruim que pudesse acontecer em Auschwitz. Logo, vemos que o narrador é um meio termo entre esses dois extremos: um que nunca falou nada sobre Auschwitz e outro que falou sem parar sobre Auschwitz. É a velha história de tese, antítese e síntese.

A queda do título pode ser vista simplesmente como a queda de João em seu aniversário de treze anos, mas vai além: as quedas são esses momentos de ruptura que mudaram cada um deles. No caso do narrador, a queda de João, a mudança de escola, a briga intensa com o pai. Para o pai, o suicídio do avô do narrador, o filho, o diagnóstico. Para o avô, a tentativa de apagar o passado com um otimismo irreal. E a cada vez que o narrador conta um mesmo fato outros detalhes vão sendo acrescentados; por mais que mencione mais de uma vez um acontecimento, ele nunca narra da mesma forma, sempre mostrando a mais, sempre uma ótica diferente, sempre com algo a acrescentar ao relato.

O avô escreveu uma enciclopédia utópica na parte final de sua vida, preenchendo cadernos e cadernos, apagando todo e qualquer sofrimento e perseguição no passado. O pai, ao descobrir-se portador de Alzheimer, passa a escrever suas memórias. O filho, como contraponto, escreve como profissão.

E, depois de ter um avô que nunca falou sobre Auschwitz e um pai obcecado pelo passado dos judeus, o narrador inverte as coisas: machuca gravemente o único não-judeu de sua turma, em uma brincadeira de mau gosto com seus amigos judeus de uma escola judaica. Como um povo com um passado de perseguição poderia ser tão cruel?, questiona-se o narrador, colocando em jogo a pureza dos judeus repetida à exaustão pelo pai.

O livro cativa principalmente pela linguagem e é narrado em pequenas notas numeradas, muitas vezes desconexas, em um fluxo de consciência constante, um longo monólogo do narrador para nós e para si mesmo. Curiosamente, as partes do livro intituladas “Notas” são as únicas que não têm essa construção.

O livro é dividido em alguns tópicos, na forma de um diário mesmo: “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai”, “Algumas coisas que sei sobre mim”. Todas elas, no entanto, poderiam ser chamadas de “Algumas coisas que sei sobre nós”, porque o autor nunca foca suas notas num personagem específico durante a parte inteira, geralmente com algo entre 20 e 30 parágrafos numerados — e não estou dizendo que isso é ruim: é como se o narrador quisesse dar um quê de organização, mas o que faz é relatar o que vem à sua mente à medida que os fatos surgem.

O livro aborda Auschwitz do ponto de vista de quem já tem certa distância do que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, não deixando — como o avô deixou — o cruel e o desumano de lado, mas o foco não é esse. O romance é um desabafo — tanto sobre os temas já descritos quanto sobre família, sobre a vida conjugal do narrador, sobre os casamentos fracassados, sobre a relação entre pai e filho, sobre o quanto crianças inocentes podem ser cruéis. Para mim, trata-se de um livro, acima de tudo, sobre traumas. Sobre quedas.

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Michel Laub
Formato 14cm x 21cm
152 páginas
Companhia das Letras

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