Receita para um livro universal

Habitue sua história nos EUA. Para tornar um livro universal é necessário que ele seja escrito em um país conhecido mundialmente, não importa se você nunca foi aos EUA. Aliás, nem precisa pesquisar muito, basta saber alguns nomes de cidade. Ou, se quiser, que seja em outro país, desde que seja europeu, não importa se você não o conhece. Se perguntarem o porquê de usar o estrangeiro, diga que você não se limita. Seus personagens devem ter nomes ingleses; afinal, eles devem soar naturais a todas as nações e línguas e não importa se seu personagem é nascido em outro país, ele deve ter nome de estadunidense e acabou, ou você não quer um livro universal? É bom que seu livro seja um romance ou uma aventura, pois esses são gêneros universais e com os quais todos se identificam. E, se não for um romance, que tenha um casal ou dois amigos que se apaixonam. Dito de forma mais direta, adapte Hollywood para as letras. Seja Hollywood da literatura. Parabéns, seu livro ainda não é um sucesso universal, embora com elementos universais, mas já é um fracasso regional, e isso já é um bom começo.

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Quando me arrisquei a escrever minhas primeiras histórias escritas (minhas esperanças com os quadrinhos já tinham se esvaído), essas regras acima citadas eram razoáveis e interessantes. Tudo que eu queria era um livro universal, e pra ele se tornar um sucesso mundial era necessário que tivesse tais elementos. (Nunca foram além do meu círculo familiar.)

Por isso, meus primeiros personagens eram chamados de James, John, Luke, Rodney, entre outros nomes ditos universais por serem conhecidos no mundo inteiro (e o que eu conhecia como mundo inteiro?). Felizmente, ainda me restava um pouco de bom senso e talvez por isso não escrevesse sobre os EUA — nem cidade nenhuma. Fazia não porque não conhecia as cidades, mas porque não queria me prender a espaços físicos limitados e que deveria respeitar. Mas, ainda assim, estava tudo lá: toda a cultura que os filmes americanos me empurravam.

Antes de falar os resultados, falo das causas. Como já cansei de dizer, a causa pode ser a enorme quantidade de filmes e séries norte-americanas que a maioria de nós sempre assistiu (nada contra você, tio Sam). Pra não generalizar, falo por mim: o motivo de eu escrever nomes da língua inglesa e elementos da cultura estadunidense era porque eu achava ela mais bonita, mais interessante do que a minha própria (talvez porque não a conhecesse também).

Atualmente, vejo muitas pessoas que seguem a mesma linha — e, infelizmente, nem todas com os dez ou doze anos que eu tinha na época, algumas são bem crescidas. Não falo apenas dos EUA, mas dos países estrangeiros em geral. Não há nenhum problema em escrever sobre um país que não o seu, não falo pra ninguém se limitar. O problema é as pessoas acharem que suas histórias não cabem no Brasil, que elas têm de ser escritas em um país estrangeiro, e, pior ainda, que na maioria das vezes nem conhecem.

Essa é uma questão que há tempos discuto internamente e voltei a pensar no assunto quanto vi uma postagem discutindo esse tópico em um grupo de escritores que participo no Facebook (que falava sobre latino-americanos, inicialmente). E uma coisa é certa: isso acaba resultando em John Parker que se apaixona por Jane Richards e se aventuram pela terra do tio Sam de maneira apaixonada (não necessariamente nessa ordem).

É necessário ver se sua história realmente não cabe no Brasil. Muitas vezes a história é simples e é só a história de um casal apaixonado. Então por que ambientá-lo em um país que você não conhece com nomes de personagem americanos tirados de um filme da sessão da tarde? É claro que existem exceções, às vezes o cenário é super relevante em uma obra e simplesmente não pode ser trocado por outro lugar. Pode ser que o livro não possa se passar no Brasil por questões específicas, ou talvez por se tratar de uma ficção fantástica, quem sabe. Mas que ao menos o autor saiba do que está falando (e isso serve até pra brasileiro que escreve sobre o Brasil).

Inverta os papéis: imagine se você pega um livro do Nicholas Sparks e ele se passa no Rio de Janeiro em Carnaval, com um João de Souza que se apaixona pela Maria José na favela e eles se aventuram no Cristo Redentor e no Pão de Açúcar. Quando escrevemos um livro que se ambienta em outro país, o mínimo que se espera é que se conheça o país, os costumes, caso contrário o resultado vai ser uma enxurrada de clichês. Ou equívocos, como quando algum filme gringo acha que a capital do Brasil é o Rio de Janeiro, ou que nosso idioma oficial é o espanhol. Quando um estrangeiro pega um livro brasileiro, ele não quer uma história que se passe em outro país, muito menos que cometa gafes sobre o país e os costumes dele — que ele conhece tão bem.

Sobre universalizar uma obra, Machado de Assis não se tornou um dos melhores e mais influentes autores do século XIX escrevendo sobre países estrangeiros e personagens abrasileiros. Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa visavam narrativas focadas no regional e se consagraram assim. Quando alguém lê os livros deles, vê um retrato do Brasil naquela época, da linguagem daquela época, dos costumes daquela época, e é assim com os escritores do mundo inteiro, franceses que escrevem sobre a França, argentinos que escrevem sobre a Argentina, estadunidenses que escrevem sobre os Estados Unidos. A literatura brasileira se tornou uma das melhores do mundo escrevendo — pasme — sobre o Brasil.

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