Motivos para passar longe daquela mania de rebuscar

Uma vez, em minhas navegações habituais pelo YouTube, encontrei um vídeo que falava sobre a linguagem que certos escritores empregam — para parecerem mais inteligentes? cultos? eruditos? Não sei —  em seus textos. Em vez de usar uma linguagem simples, comum, ou mesmo rica mas sem enrolações, esses seres iluminados usam uma linguagem extremamente rebuscada para transmitir sua mensagem.

Você não está entediado, os grilhões do ócio te acorrentam. Você não está em um lugar escuro, está em um lugar umbrífero. Não é engraçado, é pândego.

No começo do ano, um indivíduo resolveu dizer em um grupo de escritores que estava preocupado com a linguagem que empregava em seus nobres escritos. Ele estava querendo saber se o público em geral entenderia frases como essa: “Aquele garoto de cabelos ígneos, que grande acrimônia de sua parte”.

Se estava preocupado assim, pra que usar esse tipo de linguagem?

Uma das coisas mais incômodas pra quem lê é ter que parar a leitura no meio de um parágrafo e jogar uma palavra no Google ou pegar um dicionário. Não que todos sejam obrigados a conhecer todas as palavras ou que os escritores sejam obrigados a usar só expressões super simples pra que até analfabetos entendam, mas quem escreve deve levar em conta se é necessário fazer isso.

Certa vez, William Faulkner, nobel de literatura, disse o seguinte sobre Ernest Hemingway: “Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário”. Hemingway, também nobel de literatura, que não era idiota, respondeu: “Pobre Faulkner. Ele realmente acha que grandes emoções vêm de longas palavras?”.

Logo, não estou defendendo o uso de uma linguagem pobre nem de uma linguagem que mande o leitor para um dicionário, e não pretendo usar o texto para tomar o lado nem de Hemingway nem de Faulkner. O problema vem do fato de forçar a linguagem. Pra que usar uma linguagem rebuscada? Pra parecer mais culto? Pra sua obra parecer madura? Pros adolescentes torcerem o nariz quando lerem algo que você escreveu como quando um professor fala pra eles lerem José de Alencar? Se fizer isso, você corre o risco de fazer com que as pessoas passem mais horas no dicionário do que no seu livro — e acabar fazendo com que suas longas palavras não carreguem grandes emoções.

Uma coisa que aprendi: escreva como você sabe, como você fala, como você consegue. Você não elogia uma mulher dizendo que gostou dos cabelos ígneos dela. Você não chama alguém de ignóbil (por mais que a ideia pareça interessante). Você não chama um moleque de petiz.

Essas expressões podem ser usadas, mas um texto assim se torna desnecessário. A obsessão pelo rebuscamento chega em um ponto em que o cara escreve com um dicionário de sinônimos do lado. “Não, confusão não, muito comum. Balbúrdia.” Para expandir seu vocabulário, faça isso da melhor forma possível: lendo.

No mesmo tópico, um rapaz deixou esta pérola:

“Anseio por um mundo em que qualquer contenedora goze de duradoura existência, de tal maneira que testemunhe cotidianamente o nosso triunfo.” E isso é só: “Desejo a todas as inimigas vida longa, pra que eles vejam cada dia nossa vitória”, frase de certo poema contemporâneo que vocês conhecem bem.

Se quer dizer alguma coisa simples, não rebusque para que esse algo simples fique bonito às vezes nem fica. Também não te torna mais inteligente. Te torna forçado, pedante e, no bom português, chato. Ou, exprimindo-me com um léxico um pouco mais primoroso, enfastiante.

3 comentários

  1. Verborragia é triste!
    Muito bonito seu blog!
    Parabéns;)

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  2. Meus olhos se encheram de lágrimas...
    Parabéns pelo seu trabalho, sucesso!

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