Breve análise de Fahrenheit 451




Como o próprio prefácio — dependendo da edição que você tiver — traz inúmeras informações a respeito da obra, nesta postagem os spoilers serão abundantes, o que não deveria fazer a menor diferença para os leitores, já que (primeiro spoiler) este não é um livro policial, veja só.

Logo no começo do livro somos apresentados à sociedade de Fahrenheit 451, em algum lugar indefinido dos EUA, em alguma época não definida (mas que sabemos que é depois de 1990).

Dois eventos específicos nos chocam logo nas primeiras páginas do livro e reverberam por todo o resto da trama e da mente do protagonista, Guy Montag.

Na sociedade aqui descrita, toda forma de entretenimento é instantânea e todos estão empenhados na busca da “paz”, ou da “tranquilidade”, ou da “alegria”. Por isso, em certa cena, Montag entra em casa e se depara com sua esposa caída, inconsciente, e uma caixa de rivotril pílulas tranquilizantes vazia, o que indicava que ela tinha tomado cerca de trinta delas. Montag se envolve em uma correria, leva ela para o hospital, e, no fim, ela sobrevive. No dia seguinte, o choque: ela simplesmente não ligava pra isso. Não se lembrava de ter tomado as pílulas — costumava tomar uma, duas para dormir, e, mesmo perdendo o controle, continuaria e continuou tomando.

Nessa sociedade, as pessoas não se importam com mais nada: ficam o dia inteiro entorpecidos ou por pílulas como aquelas ou por novelas, Big Brother e A Fazenda programas de televisão ou por rádioconchas que tocam músicas e passam informações 24 horas por dia.

Guy Montag é um bombeiro. Nessa sociedade, no entanto, a função deles não é mais apagar incêndios — todas as casas foram revestidas de um material que impede que eles aconteçam. O papel desses homens agora é incendiar. Incendiar livros.

E uma das cenas da ação dos bombeiros é o segundo evento específico do qual falei: os bombeiros são chamados para incendiar a biblioteca de uma senhora. Quando chegam lá, a senhora prefere ser queimada com os livros.

E é essa cena, entre outras que não vou comentar aqui (como quando ele conhece Clarisse, a primeira vez em que ele se pergunta o porquê das coisas, em vez de apenas o como), que desperta Montag, até então mais um naquela sociedade de entretenimento instantâneo e repúdio aos livros. A partir daí ele fica se perguntando o porquê de aquela senhora ter feito aquilo — o que, afinal, havia naqueles livros? Por que era mais vantajoso morrer do que viver sem eles?

E, num impulso, ele segura um deles, o esconde e leva para casa.

Diversos momentos do romance nos chamam a atenção. E não é nem um pouco difícil ver que, mesmo que na época em que foi escrito tudo isso soasse exagerado e, mesmo hoje, certas passagens sejam caricatas, vivemos em uma sociedade bem parecida, como uma ditadura da maioria regida pela indústria cultural.

Em certa parte do livro, Montag está dentro do salão de sua casa, onde ficam as grandes telas que ocupam toda a parede, com sua esposa e duas colegas desta. E então as colegas de sua esposa dizem para mudarem o assunto para política, para que Montag participasse efetivamente da conversa. Então elas começam a conversar e a dizer a maneira como escolheram seus candidatos:


— Não era grande coisa, não é mesmo? Meio baixinho e feioso, não fazia direito a barba nem sabia se pentear muito bem.


— O que deu na oposição para lançá-lo como candidato? Não se pode lançar um baixinho desses contra um homem alto. Além disso... ele resmungava. Metade do tempo eu não conseguia ouvir uma palavra do que ele dizia. E quando eu ouvia, não entendia!


Nisso, vemos uma semelhança com nossos dias — a escolha dos candidatos por motivos fúteis, por exemplo (não a aparência, especificamente, porque não lembro de nenhum candidato bonito). Quanto a isso, nem é necessário dissertar muito. Mas, não só na política, vemos nessas conversas a escassez de pensamento crítico — ou mesmo o não-crítico. As conversas, vazias e completamente sem conteúdo, são assustadoras por revelar, pela ausência das palavras e pela repetição das ditas, a completa futilidade dessa gente.

Na mesma conversa, logo em seguida, Montag surta e, em um ato aparentemente alucinado, pega um livro de poesias e mostra-o às mulheres, que mostram total estranheza ao se depararem com o objeto. Mesmo com as negativas de sua esposa, Montag decide ler uma delas. Uma das mulheres começa a chorar, outra diz odiar o gesto, e ambas se retiram da casa amaldiçoando o bombeiro e jurando nunca mais voltar àquela casa.

Faber, um professor que acabou tornando-se cúmplice de Montag, repreendeu-o por ter lido as poesias, era expor-se demais; afinal, era inadmissível para um cidadão (e bombeiro) ter aqueles livros, e ele já havia sido advertido até mesmo por Beatty, chefe dos bombeiros e seu superior imediato. Faber o aconselhou:


Compaixão, Montag, compaixão. Não os azucrine nem implique com eles; há bem pouco tempo você também era um deles. Eles estão seguros de que continuarão. Mas não é verdade. Não sabem que tudo isso é um enorme meteoro ardente que produz uma bela chama no espaço, mas que algum dia terá de colidir. Só veem a chama, a bela fogueira, como você viu.


Logo, não faz sentido esfregar a ignorância das pessoas em suas próprias faces, como se fôssemos os seres mais intelectuais por lermos (e tenho visto bastante disso, e geralmente é de gente que nem lê grandes coisas; trocar filmes sem conteúdo por livros sem conteúdo te faz melhor?). Como lembrou Faber, Montag há pouco tempo era tão acomodado e ignorante quanto aquelas mulheres.

Mas Beatty, o chefe dos bombeiros, é, em minha opinião, a personagem mais bem construída de toda a obra. Ele conhece profundamente o que destrói e concede aos bombeiros 24 horas para ficar com um livro, para possam odiá-los com propriedade. Ele mesmo consegue citar inúmeras obras de cabeça. Indagado por Montag sobre o que a velha que foi queimada com os livros queria dizer ao citar mestre Ridley, Beatty explicou-lhe imediatamente a origem e história da frase. E, conhecendo tão bem os livros, diz a Montag que eles nada dizem, são só palavras; no fundo, os livros são vazios, o caminho da incerteza, e permite que Montag fique 24 horas com um.

Ao ver que Montag permanecia com dúvidas, coisa que os livros haviam lhe proporcionado, eles travam um dos melhores diálogos de todo o livro:


— Pare de corar. Minha intenção não é provocá-lo, realmente não é. Sabe, eu tive um sonho uma hora atrás. Deitei para tirar uma soneca e sonhei que você e eu, Montag, entramos numa violenta discussão sobre livros. Você espumava de raiva, gritava citações para mim. Eu aparava calmamente cada investida. O poder, eu disse. E você, citando o doutor Johnson, respondeu: “O conhecimento vale mais que o poder!”. E eu disse: “Bem, meu caro rapaz, o doutor Johnson também disse que ‘Nenhum sábio no mundo trocará uma certeza por uma incerteza’”. Fique com os bombeiros, Montag. Tudo o mais não passa de um caos sinistro!


[...] E você disse, citando: “A verdade virá à luz, o assassinato não ficará oculto por muito tempo!”. E gritei, bem-humorado: “Meu Deus, ele só está falando de seu cavalo!”. E ainda: “O Diabo é capaz de citar as Escrituras para atingir seus fins”. E você gritou: “Esta época preza mais um idiota engalanado do que um santo em farrapos na escola da sabedoria!”, e eu sussurrei suavemente: “A dignidade da verdade se perde no excesso de protestos”. E você gritou: “As carcaças sangram à visão do assassino!”. E eu disse, acariciando sua mão: “O quê, eu lhe provoco estomatites?”. E você gritou, estridente: “Conhecimento é poder!” e “Um anão nos ombros de um gigante vê mais longe que os dois!”, e eu resumi minha opinião com rara serenidade interior: “A insensatez que consiste em tomar uma metáfora por prova, uma verborragia por uma fonte de verdades capitais, e a si mesmo por oráculo, é inata em nós”, disse certa vez o senhor Valéry.


Beatty soube usar muito bem os livros contra os próprios livros, como em uma de suas citações. Montag fica confuso e luta contra isso. Deveria acreditar em Beatty, tão conhecedor dos livros mas ao mesmo tempo tão avesso a eles, ou em Faber, covarde mas tão cheio de ideias? Sempre se teme o que não é familiar, diz Beatty.

É incrível a maneira como Fahrenheit 451 dialoga com os nosso dias. Se naquela época os monitores de televisão eram comparados com o Grande Irmão, de Orwell, hoje são como os reality shows e as telenovelas que tanto inundam a programação televisiva (um deles tomando como título um nome bem comum para quem conhece Orwell). Hoje, podemos ver a tendência crescente de, assim como em Fahrenheit 451, preferir um entretenimento instantâneo, feito para que a população acredite estar pensando, mas não estando de fato.

Se você leu até aqui, ou não liga para spoilers ou está bem bolado comigo. Então, prossigamos: no fim, temos outra grande questão, talvez a principal do livro. Extintos os livros, resta apenas a memória deles, e é isso que vemos no final. Cada homem é um livro; cada um retém, em sua mente, trechos ou livros inteiros, para guardá-los para uma época em que essa proibição não exista.

O livro-objeto não é importante, e esse trecho resume bem essa questão:


— Você é um romântico incurável — disse Faber. — Seria cômico se não fosse trágico. Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. As mesmas coisas poderiam estar nas “famílias das paredes”. Os mesmos detalhes meticulosos, a mesma consciência poderiam ser transmitidos pelos rádios e televisores, mas não são. Não, não. Absolutamente não são os livros o que você está procurando! Descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e nos velhos amigos; procure na natureza e procure em você mesmo. Os livros eram só um tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer. Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós a partir de retalhos do universo. [...] você sabe por que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra qualidade? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem feições. Este livro poderia passar pelo microscópio. Você encontraria vida sob a lâmina, emanando em profusão infinita. Quanto mais poros, quanto mais detalhes de vida fielmente gravados por centímetro quadrado você conseguir captar numa folha de papel, mais “literário” você será. Pelo menos, esta é a minha definição. Detalhes reveladores. Detalhes frescos. Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos.


A mensagem que havia nos livros poderia ter sido passada pelos monitores, pelas radioconchas, por qualquer outro meio. Mas eles conseguiram uma maneira de tirar as informações úteis desses veículos midiáticos. E, a respeito dos livros, resolveram queimá-los. Não é o livro-objeto, são as informações ali contidas que tiram as pessoas da zona de conforto, faz com que elas, como nesse romance, pareçam estar “menos felizes”, e, em Fahrenheit 451, a felicidade e a paz — ou a falsa-felicidade e a falsa-paz — é o objetivo. Os livros mostrariam que não são felizes nem pacíficos; afinal, estava ocorrendo uma guerra e ninguém sequer se importava.

Os livros não são importantes mas a mensagem que eles passam deve ser. A prova disso é o grande número de livros que não passa mensagem alguma; ou os livros que servem para evitar espaços vazios na estante, como diria Drummond. (Nem preciso citar nomes aqui, vocês já devem ter pensado em vários.) A mensagem pode ser passada no formato de filme, no formato de música, em uma transmissão no rádio ou em um vídeo no YouTube. O importante é saber que a função desse pensamento crítico — na literatura e em qualquer outro veículo — é tirar da zona de conforto; a felicidade só vem depois.

E se você acha que esse foi um resumo da obra e que, portanto, não precisa lê-la, sugiro que coloque uma radioconcha na orelha e espere as informações chegarem até você. É isso, Bradbury. Você estava muito certo.

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